Por esses dias ouvi uma moça declarar que estava com medo de ter engravidado, pois não se prevenira durante o ato sexual que praticou com o namorado com quem está há três meses (não vamos entrar no mérito dessa rapidez; não nesse texto). Conheço essa jovem há algum tempo; sei que ela é cristã. 

E se estiver?”, eu perguntei. “O que poderia ser feito, além de parir, criar, dar amor, dar a própria vida, se necessário?”.

Ela me olhou, entre surpresa e envergonhada.

“Não, mulher, eu nunca abortaria. Mas eu ia ser julgada pra sempre! E ia acabar com meus planos pro futuro. Já pensou? Deus me livre! Agora não”.

Eu não acho que o sexo seja um erro, um pecado, uma afronta aos bons costumes; todos nós somos fruto de uma relação sexual entre nossos pais, pessoas que se expuseram a um contato tão íntimo, tão particular. Quando duas pessoas enfim se casam, nós sabemos muito bem o que se espera da lua de mel, especificamente da primeira noite de núpcias. Nós somos seres humanos, carnais, e temos nossos desejos, nossas vontades, nossos impulsos naturais – todos nós os temos. Sabemos do que se trata. Sabemos da dificuldade que existe em controlá-los, quando o controle se faz necessário.

Mas, eu não posso não ficar incomodada quando ouço uma pessoa tratar a gravidez como um problema a ser evitado. Como quando o seu namorado está gripado, você o beija e o abraça, pega a gripe e reclama que por culpa dele você está doente. O que você esperava, afinal? Houve exposição máxima à potencialidade e, por isso, houve consequência. “Você quis beijá-lo e abraçá-lo”, eu costumo dizer. “Agora assoe o nariz!”.

Perdoem-me pelos termos escolhidos nessa analogia, sei que posso ter soado insensível. Mas, pensem comigo: a exposição ao contato sexual natural gera uma consequência, que nós sabemos desde o início dos tempos qual é: fruto em vida. Friso o natural porque a fraqueza humana criou um contato sexual artificial, que se desenvolve em termos de prazer, fruição, satisfação pessoal e egoísmo. Sim, egoísmo, e essa afirmação não advém de uma reflexão apenas minha; às vezes gosto de ler sobre a filosofia do erotismo nas obras literárias (sou aluna do curso de Letras), e é unânime a afirmação de que o gozo estético, assim como o gozo corpóreo, é resultado de esforços pautados em impulsos individuais. Ou seja: quando o objetivo primário, às vezes único, é o prazer, o indivíduo tende a satisfazer-se com sua própria sensação, independente de quem esteja com ele, compartilhando de tal momento. Fisiologicamente, o homem, após o ápice do prazer, interrompe seus impulsos, apesar de, muitas vezes, a mulher (individualmente) não ter se sentido “satisfeita”.

Eu não quero dizer que o prazer é um problema, porque sei que não é – ele é importantíssimo, na verdade. O problema mesmo é quando esse prazer é a única coisa à qual você almeja durante uma relação, quando ele é o seu único objetivo. Ao fazer isso, você fecha as portas para a consequência mais sublime de um ato tão íntimo quanto o sexo – a concepção, o nascimento. Ao fazer isso, você transforma a vida num erro, numa “interrupção desastrosa”, numa “perda dos seus planos futuros”. E os planos de Deus, onde ficam, não importam? Importam os seus, apenas? E você quer argumentar comigo e dizer que isso não é egoísmo? Tem certeza?

Acabamos de sair do Advento, vivenciamos um período que perpassa aquela história, aquela lá, em que uma jovem aceitou uma gravidez num contexto que lhe era totalmente difícil, perigoso, complexo – mas, aceitou, porque era o plano do Pai, era o que Ele queria, e se fora ela a escolhida, que fosse feita a vontade d’Ele.
Há um motivo para os nossos pais, nossos pastores, nossos líderes, enfim, há um motivo para as pessoas mais experientes nos dizerem que o casamento é o momento certo para o início de um contato físico íntimo. É mais do que doutrina, tradição: é segurança, certeza, preservação, preparação, exercício de autocontrole e de treinamento espiritual. Quando o assunto é a nossa carne, facilmente nos tornamos voláteis, porque somos envolvidos por ela, literal e metaforicamente.
Se, nesse texto, eu fosse abordar a legalidade (do ponto de vista cristão) ou não dos métodos contraceptivos, o ímpeto da massa pela banalidade abortiva, a falta de fidelidade aos princípios declarados nos sacramentos, não haveria espaço para tanta discussão. Por isso, dessa vez, eu só queria socializar uma reflexão comum, especialmente com as pessoas que já vivenciaram momento de tensão por causa de uma intimidade apressada.

“Eu me protejo, comigo não acontece”.

“Tenho medo, mas não transar não é opção”.

“Problema meu; se eu quiser, aborto”.

“Tomara que não aconteça, ia interromper toda a minha vida”.

“Meu namorado me deixa se acontecer”.

“Eu termino com ela, se acontecer; a minha parte eu faço, ela que faça a dela”.
Quando entrei para o curso de Letras, minha maneira de ter contato com os livros mudou. Estudando teoria literária, aprendi a respeitar o Escritor e, acima de tudo, a respeitar o Livro em toda a sua plenitude e independência. Ao mesmo tempo, aprendi que eu, enquanto leitora, preencho as lacunas dos textos com as minhas experiências, com as minhas expectativas – e aprendi, ainda, que outros leitores preencherão as mesmas lacunas com experiências e expectativas diferentes das minhas, e que preciso respeitá-los quanto a isso. Percebi que gosto de leitura significativa, ou seja, daquela leitura que é feita quando os meus quereres vão de encontro às propostas do Escritor, e eu posso, então, vivenciar o verdadeiro prazer de ter compreendido o que era importante. Amadurecendo, percebi que ler um Livro de qualquer jeito, sem propósitos, desrespeitando as linhas narrativas, pulando capítulos aparentemente desinteressantes, é uma perda que eu não posso nem contemplar, além de ser um desrespeito ao primoroso trabalho do Escritor. 
Essa sim, creio eu, foi uma analogia sensível.

Espero que você a entenda.  

Um Comentário

  1. Foi o tiro mais bem escrito que eu vi em meses!!! Caraca, Leili, arrasou!

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