Meus pais são casados há 30 anos, se conheceram jovens; cada um tinha 21 anos de idade e foi a típica paixão à primeira vista. Meu pai viu minha mãe sentada na janela de uma pequena capela do interior. Ambos saídos de noivados mal sucedidos, estavam feridos, cansados e desistindo dessa vocação. Anos 80, eram outros tempos, outros costumes; aos 21 anos, hoje, está quase fora de cogitação um matrimônio, mas, naquela época, as famílias já estavam até mesmo desesperadas para que eles se casassem. A parte da conquista foi a mais complicada; minha mãe estava decidida a ser freira, meu pai teve que conquistar uma família inteira pra chegar até ela, mas... Vamos pular essa parte e concluir que no dia 20 de abril de 1984, na Matriz de Santo Antonio, em Paracatu – MG (foto acima) eles se casaram. Um ano depois nasceu minha irmã; dois anos mais tarde, meu irmão e, após mais dois anos... Eu. Nós, os filhos, crescemos - e nossos pais também cresceram. Amadureceram com os anos e aprenderam a serem família... e não foi nada fácil.
Eu me lembro de brigas, discussões, promessas de separação etc. Meu pai nunca teve medo de aceitar empregos, de onde quer que viessem ofertas, então fomos uma família na qual a mudança era algo comum; vivíamos longe dos nossos familiares, e fazer amizades era perigoso, já que sabíamos que em breve haveria uma nova mudança. Mudamos tanto de cidade e de casa que isso se reflete até hoje em nossas personalidades (o que é assunto para outro texto). Iniciei minha pré-adolescência observando as coisas com mais clareza e concluindo, com base no meu “achismo”, que não havia amor entre os meus pais e que eu jamais me casaria, porque eu não queria ser infeliz daquele jeito. A minha conclusão foi baseada em motivos tão fúteis! Eu assistia a filmes e desenhos em que casais sempre se amavam, sempre se beijavam, sempre se abraçavam e jamais brigavam... Eram sempre felizes. Mas, eu estava errada: há coisas que história (ficcional) nenhuma me contará.
Ninguém jamais amou meu pai como minha mãe, e não houve nenhum homem que amou minha mãe como meu pai. Minha mãe é uma mulher de oração; meu pai é um homem de obras. Minha mãe vê a dignidade relacionada à fé; meu pai vê a dignidade no trabalho, no suor que garante o sustento. Minha mãe fala sem parar; meu pai tem o silêncio como virtude. São opostos, mas complementares E eu só pude perceber isso quando passei a notar pequenos detalhes e também ao levar a quantidade de anos em conta... Meu pai se vangloria da boa memória, mas é mamãe que o ajuda a não se esquecer de nada, perguntando pelo menos umas 10 vezes por dia a mesma coisa. Minha mãe sempre acompanhou meu pai em nossas mudanças; deixava tudo para trás, mas nunca o deixou só em nenhuma nova etapa. Minha mãe abriu mão de muitas coisas na vida, renunciou a tantas outras...
Quando mamãe viaja, meu pai coloca os mesmos travesseiros na cama e dorme no lado certo, de sempre, respeitando o lugar dela como se ela estivesse ali. Todos os dias mamãe reza o terço à noite antes de dormir, e o nome do meu pai é sempre citado em suas orações. Ela ama pimenta, mas deixou de colocar na comida por causa dele. Ele parou de comer carne de porco quando ela viveu uma época bem radical “baseada na bíblia”. Tanta coisa da qual ele passou a gostar porque ela gostava e tanta coisa da qual ele abriu mão por ela não gostar. Ele cedeu tantas vezes, e ela também. Ele silenciava quando ela buscava discutir. Ela saia pra igreja quando ele tirava o dia pra reclamar do trabalho atual. Ele se preocupava de verdade, e ela tirava algumas horas para ler a Bíblia a ele, dizendo o quanto Deus é fiel com os justos, dizendo que ele não deveria se preocupar tanto. Ele, sempre pacientemente, dizia a ela que estava errada, que era teimosia insistir em dizer que "não era tão ruim", porque era, sim, bastante ruim. Então: como dizer que isso não é amor? Não estou afirmando que meus pais são perfeitos, não é minha intenção fazer isso; realmente, não sei dizer se, durante todos esses anos, não houve traição física ou emocional.
A questão é que, quando eu era adolescente, eu não conseguia ver além da superfície. Mas, com o tempo, parei de exigir apenas os grandes gestos e passei a reparar nos detalhes. Passei a reparar na persistência dos meus pais, no que fazia com que eles sempre reconstruissem a vida. Hoje, o que compreendo de amor é o que vi na prática: os sacrifícios, as orações, os pequenos atos, o respeito. Meus pais me ensinaram que o amor vai além dos beijos e das declarações românticas. Dentro do meu lar, vi o que existe depois do 'final feliz', o que vem depois da festa de casamento, o que acontece quando nascem os filhos, quando eles crescem. Minha família nasceu naquele 20 de abril, é verdade, mas não nasceu pronta; assim como um bebê, ela foi aprendendo dia após dia, crescendo tanto em tamanho quanto em maturidade. Eu vi o sofrimento dos meus pais no que diz respeito  à desintegração do matrimônio, quando acompanharam tristemente o divórcio da minha irmã. Nessa época, meu pai disse que não se 'joga fora' algo sagrado; disse, ainda, que manter o casamento exige, sim, companheirismo, mas que também exige trabalho individual. Ele deu uma aula sobre o que viveu na prática.
Eu ainda não sei se a vocação matrimonial é para mim, mas, hoje, sem a rebeldia da minha adolescência, é um sacramento que faz parte dos meus discernimentos. Parei de culpar meus pais pela descrença nessa vocação e passei a agradecê-los por todo o ensinamento que adquiri. Sob minha visão (essa mesma que me foi passada pelos meus pais), todos deveriam enxergar o casamento como algo sagrado, como um presente, um dom de Deus. Sei que muitos dos leitores desse blog não têm em casa pais casados, e sei que talvez a sua visão ainda esteja presa aos traumas que vivenciou dentro de casa. Mas, o que desejo é que vocês busquem ver além; busquem os detalhes nos gestos da vida daqueles que estão se fazendo família para você. Sei que falar sobre vocação é e sempre será complicado; a cada dia, as circunstâncias do mundo nos 'ensinam' que o melhor é ser solteiro e não ter que pensar em nada. A verdade é que, seja qual for o seu caminho vocacional, ele sempre exigirá sacrifícios e ele sempre será daquilo que nos contam. Serão lutas diárias, renúncias e mais renúncias. Vocação será sempre uma escolha de fé, pela fé e para a fé, e é natural que cause medo em quem se acostumou com os confortos de uma vida sem exigências, sem decisões.
Eu o convido, hoje, a reavaliar as coisas à sua volta. Convido-o, neste ano que ainda está no início, a  dar mais atenção àquilo que é simples. E desejo, de coração, que você tenha sempre Jesus em suas experiências.
Salve Maria!

2 Comentários

  1. Ótima e edificante reflexão! Deus vos abençoe!

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  2. "Como é bom ter a minha família, como é bom!!". Reza está bela canção do padre Zezinho. A família vai muito além de um casal com seus filhos, mas esta é um grande projeto de Deus para a salvação da humanidade.Ame a Deus, ame a humanidade, ame a sua família....
    Deus abençoe a todos!!

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