Muito me martela no coração uma palavra de angústia:
o coração dos cristãos, e principalmente dos ainda não-cristãos, se enche de orgulho e se fecha para mim. Eis a doença dos crentes, eis a tranca dos descrentes. 

O quão difícil pode ser aceitar a submissão? Sim, submissão, entregue e despretensiosa, total e sem volta, a Deus e aos seus interesses. Para onde Ele nos enviar, iremos. O quão difícil é ir? Para a vocação que Ele nos chamar, iremos. O quão difícil é ir? Para a renúncia que Ele nos chamar, renunciaremos. O quão difícil é renunciar?
Não são raras as vezes em que eu escuto histórias de pessoas que dizem "não sentir o que os outros sentem" em um momento de oração, em um retiro. Pessoas que dizem "esperar, tentar", e, apesar disso, não vivem a tal 'experiência com Jesus'. "Por que não ocorre comigo? Por que eu me dedicarei, então, se isso não me alcança? A graça de Deus é para todos, mas eu sou do grupo das exceções". E sabe qual eu sinto que é o problema? O mesmo que o meu: criar expectativas e não suportar a ideia de elas serem quebradas. Queremos sentir do jeito que queremos. Queremos que Deus se submeta às nossas vontades, o que pressupõe que não estamos dispostos a nos submeter às vontades dEle. E se Ele não usar a nossa linguagem, não somos capazes de compreendê-Lo, e facilmente dizemos que Ele também não anseia tanto assim por nos compreender. 
A nossa linguagem é o egoísmo, "o que for melhor/mais fácil para mim". A linguagem de Deus é o Amor. 
Qual parece melhor?

Por outro lado, também não é raro eu ouvir pessoas tecendo críticas ao nosso Deus. Chamando-o, curiosamente, de egoísta. Vaidoso, desejoso de todas as graças para Si. Convencido, e violento - "o deus do antigo testamento não corresponde ao deus do novo testamento", e ninguém percebe que o Criador de todo o universo é o maior poder que jamais compreenderemos, pois não somos feitos para compreender. Mas essas pessoas usam a própria Palavra para dizer que nós O louvamos por uma fraqueza nossa, por não aceitarmos a solidão do universo, por não suportarmos a ideia de "nos virarmos sozinhos". Pessoas que "se viram sozinhas". Pessoas "autossuficientes". Pessoas que não suportam a figura de um Deus porque reproduzem nEle os defeitos que sabem existir em si mesmas, porque elas não conseguem admitir a perfeição, e não conseguem, acima de tudo, admitir a submissão. Submeter-se a um Deus que tudo sabe, que tudo entende, que tudo acolhe. Constrange-os esse amor gratuito, parece-lhes impossível um amor tão simples e fácil. Por não experimentá-Lo, parece-lhes falso, e renunciam-no, ao invés de renunciarem às travas que os impedem de senti-Lo.

E nós, que nos dizemos convertidos e seguros, "firmes na fé": em que somos melhores? Esquecemo-nos de que cremos para apresentar as portas da fé aos outros? Esquecemo-nos do que os discípulos nos ensinaram? Esquecemo-nos do que o próprio Filho nos ensinou? Escrevemos um texto para um blog com o intuito de quebrantar corações, e é o nosso corpo que esquenta quando vemos a repercussão, os likes, os comentários - não pela graça alcançada, mas por termos sido nós os escritores (na verdades, humildes tradutores). Fechamo-nos em nossa certeza de correção espiritual, em nossas convicções da oração, em nossos louvores no Spotify e em nossas palmas nas células e nos grupos de oração, mas parecemos ignorar o fato de que se amontoam no meio do mundo as almas que desconhecem a alegria que nós dizemos conhecer. De que adianta uma fé reclusa? De que adianta dizer que entendemos, se não nos estimula a necessidade de que a maior quantidade possível de pessoas no mundo precisa entender também? Por acaso chegamos onde chegamos sozinhos? Tivemos suportes. E nós, somos suporte para alguém? Tivemos acolhimento, algo nos chamou a atenção. Algo nos chamou. E nós? Em que medida chamamos e em que medida afastamos, com nosso 'orgulho cristão', por mais incoerente que essa expressão pareça ser? Percebemos a incoerência ou aceitamos a existência dela, em um silêncio constrangedor?

O orgulho é uma ferida diferente, porque ela sangra naquilo que temos de pior. Ela nos ataca e nos afunda nas nossas piores fraquezas, e nós sucumbimos em pontos fracos. Orgulhosos demais para ajoelhar-se diante de Deus e machucar seus joelhos lisos e preservados pelo medo. Orgulhosos demais para pecar de novo. Orgulhosos demais para pedir perdão. Orgulhosos demais para pedir ajuda Àquele que é perfeito. Orgulhosos demais para convidar o amigo ateu que sempre se recusa. Orgulhosos demais para sucumbir pela graça (ainda que estranhamente dispostos a sucumbir pelo pecado). Orgulhosos demais para renascer, orgulhosos demais para abandonar. Todos nós. Orgulhosos demais para admitir o orgulho.

Se sábios, adultos e maduros, ajoelharam-se perante uma criança recém-nascida nos braços de sua mãe, porque eu não consigo fazer o mesmo? Se eles se ajoelharam antes mesmo de saberem tudo o que Jesus faria, porque eu não consigo fazer o mesmo, apesar de saber tudo o que Ele fez e faz? Por quê?

Porque enquanto a minha voz se sobrepor à voz de Deus, eu só terei comigo a minha própria humanidade. 
E é pouco. 
Enquanto minha alma clama pela Eternidade, minha carne roga pelo imediatismo das sensações.   
E a porta da carne abarca o tamanho do meu orgulho.
A porta do espírito, contudo, é estreita.

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