Não sei se já disseram isso para vocês, mas não há nada de errado em discordar das grandes massas – e por “grandes massas” eu também estou me referindo às minorias revolucionárias; aos religiosos que se prendem mais em ódio que em amor e ensinamentos frutíferos; às más influências que encontramos desde a porta da igreja até o banheiro de nossa escola/nossa universidade. 
Por esses dias, um grupo de moças da minha faculdade marcou uma reunião para discutir a criminalização do aborto, e a reunião foi convocada como se toda e qualquer mulher do curso fosse obviamente favorável a essa onda de “queremos abortar, deem os nossos direitos”. Moças jovens, saudáveis, perfeitamente capazes de refletir com menos inflamação e mais conhecimento, mais senso crítico a respeito de um tema tão delicado, tão incrustado na ética (não apenas na religião, coisa que muitas delas não aceitam, ainda não sei o porquê), quanto o aborto. Fiquei me questionando: o que fariam comigo se eu aparecesse nessa reunião e dissesse “bem, admito que há muitos problemas a serem resolvidos, mas não creio que o aborto seja a cereja desse bolo de soluções pendentes”. Certamente, penso eu, seria incompreendida; meus argumentos seriam reduzidos ao absurdo no momento em que eu deixasse transparecer, pelo meu discurso, pelo meu comportamento, a minha crença – ainda que minha argumentação não fosse fundamentalmente cristã, a argumentadora seria cristã, e só isso, para muitas das pessoas que sei que estarão ali presentes, seria suficiente para invalidar a minha voz enquanto representante de tantas outras mulheres. 
Já perceberam o quanto nós, cristãos, somos intimidados pelo poder de grito (quase literalmente grito) daqueles que não têm um pingo de pudor na hora de atacar aquilo que para nós é sagrado – atacar Aquele que é nosso mentor, mestre, regente? Quantas vezes eu me calei perante situações e pessoas específicas, que, sabe lá o porquê, me fizeram perder as forças no momento em que mais precisei defender a minha fé, a fé de muitos dos meus? Quantas vezes nós nos omitimos por vergonha de sermos tradicionais, por vergonha de admitirmos que não participamos de certos “costumes sociais” porque fomos ensinados, orientados, de acordo com princípios incômodos a essa tendência contemporânea à ruptura? Quantas vezes não abaixamos a cabeça ao ouvir um “o seu Deus é um vaidoso”, e quantas vezes não respondemos com ódio e afastamento àqueles que precisavam, e ainda precisam, de atenção e diálogo?
A cada dia que passa, meu coração se inflama (e eu realmente espero que vocês de fato pensem numa inflamação, num ponto de dor) com a perturbadora pergunta: a quem estamos servindo, a quem desejamos agradar? A quem eu estou dirigindo meus esforços, para quem estou direcionando as minhas forças – de onde está vindo o alimento do meu espírito? Por que, tantas vezes, o mal, através de inúmeras facetas do mundo, consegue podar essa fé que nós tanto lutamos para amadurecer? O quanto superficialmente estamos ligados a Jesus, ao ponto de o menor sinal de vento já ser o suficiente para silenciar o fogo que com tanto sacrifício nos foi garantido pelo Espírito?  A quais olhos estou voltando meus próprios olhos, e por que a mesma correção precisa ser aplicada a mim repetidas vezes?
Todos os dias, nós precisamos ter a coragem de dizer a Deus: “ainda que humanamente doloroso, meu espírito, hoje, exultará em propagar o Teu amor a quem quer que seja, apostando em todo e qualquer solo, ainda que frutificando apenas naqueles que ainda estejam férteis – muito ou pouquíssimo, mas férteis”. Não estou dizendo que é fácil, vejam bem: eu também peno, fraquejo, me humilho e me arrependo das minhas omissões.
Mas, estou dizendo que é necessário. Para mim.
Para você.
Para qualquer um que tenha chegado até aqui.

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