Ouvi, como que um sussurro doce:

Cal... Maria... Abrace-me...
Acordei em um sonho, quando a realidade visível das coisas era muito mais nítida, e meus sentidos já não faziam sentido como de costume. E eu flutuava, apesar dos pés estarem atados ao chão. Estávamos unidos mesmo que não houvessem duas pessoas - apenas eu, e o céu maravilhosamente claro.
Por segundos foi-me concedido o favor de recordar trechos da pungente dor da realidade natural do mundo: estava minha família - todos os meus - diante das cotidianas e ferrenhas lutas da pós-modernidade. Sofríamos, chorávamos, parecíamos nitidamente sós mesmo sendo um grupo de pessoas biologicamente trazidas à vida humana sob as mesmas gotas de sangue...
Minhas dores deram lugar ao seu azul de alma.
De repente retornei ao sobrenatural, e o sonho continuava sob o mesmo céu, o mesmo eternamente onde estávamos. Não via o seu rosto, mas haviam montanhas que, mesmo ao longe, pareciam pronunciar o seu nome (“montanha” tem um “M” de você). A natureza exuberante, o grande cenário entregava-se à sua atitude natural de ser dócil. Calma. Reluzente. Entregue pois confiante. E minhas dores recordadas, de caráter mundano, corpóreo, transitório, deram lugar ao seu azul de alma.
O seu rosto é véu e tuas palavras, poesia de alma.
O escuro do terror abriu o trânsito para o seu claríssimo tomar toda a rodovia. És a via - eu a via sem enxergar; sentia com a certeza de quem recebeu dos céus o dom da fé. Notava na beleza da gratuidade o quanto sua presença é sóbria, e em mim já não sobrava nada além do admirar contínuo e desapegado. O seu rosto é véu e tuas palavras, poesia de alma: em seu melódico silêncio repouso os meus “por enquantos”, e assim persigo, com muito mais confiança, meus amanhãs!
Montanha tem um “M” de você.
Acordei de um sonho que teve uma duração incompreensível aos relógios que criamos. Diante de um lindíssimo campo avistei com o coração e constatei em contemplação: meu ser esteve afastado da quietude que agora revisita minha sala de estar. Por favor, não vá. Alivias os meus receios, redireciona santamente todos os meus meios. E reapresenta a esta pobre criatura humana o verdadeiro fim que é bendito e fruto de teu ventre - Rei. E só assim irei, seguirei. E daqui pra frente, com a tua calma em minha alma, entrelaçado em teu abraço, jamais desistirei.
Amanheceste meus anoiteceres.
Trouxeste-me a calmaria. Então abrace-me, terna e eterna...
Maria.

(Rodrigo Duarte para 48janeiros)

3 Comentários

  1. Após quase 1 ano em que te conheci, e fui impulsionado pelo testemunho a me consagrar, e a escrever com muito mais seriedade, é uma alegria indescritível poder colaborar. Que a Nossa Senhora (literalmente. sahshahshas) permeie cada passo que dermos, cada enfrentamento nestes dias difíceis e velozes. Conte comigo sempre. :)

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    1. Quanta beleza, quanta doçura. Estou encantada. Parabéns pelo texto, Rodrigo Duarte! :)

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    2. Muito obrigado pelo comentário, Débora! É maravilhoso estar em ambientes como este, onde a probabilidade de conhecer outros corações também abertos à ação de Deus é enorme. Deus abençoe. :)

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