Vivemos a onda do "não é bem assim, o que é importa é outra coisa". Duvidam?
"Não é interessante tatuar sua pele com inúmeros desenhos permanentes e aleatórios, dos quais você pode se arrepender depois. O seu corpo, a apresentação dele, transmite uma mensagem para as pessoas, e você precisa, enquanto cristão (ã), estar atento (a) a essa mensagem".
Resposta:
"Não é bem assim, o que importa é que eu acho Jesus um cara muito legal, e eu sei que Ele me ama independente do que eu faça". 
E Ele ama mesmo. O que eu não sei é se você O ama como diz amar, tampouco sei se você estaria disposto (a) a se sacrificar em nome d'Ele, como Ele se sacrificou por você. 
"Não é interessante relacionar-se com tantas pessoas ao mesmo tempo, seja em uma balada (que às vezes nem é ambiente para você), seja no dia a dia. Lembre-se da influência que a afetividade tem em nossas vidas, e procure precaver-se de certos transtornos futuros". 
Resposta:
"Não é bem assim, eu posso muito bem ir à balada na sexta e no sábado, porque, no domingo, eu vou à missa, e o que importa é que eu não deixo de rezar, nem de comungar. Deus olha além de tudo isso". 
E Ele olha mesmo. O que eu não sei é se você é capaz de olhar além de tudo o que faz, a fim de perceber que cada gesto seu desemboca numa consequência inevitável, e que o conjunto dessas consequências pode, cedo ou tarde, afetar drasticamente a sua relação com o Deus o qual você promete 'jamais abandonar'.
"Não é interessante ser tão grosseiro (a) com as pessoas... Não foi um ensinamento de revolta e de estupidez que Jesus deixou para você. Para que ser tão rude? De que vale isso?". 
Resposta:
"O que importa é que eu falo a verdade, eu digo quando as pessoas estão sendo hipócritas do mesmo jeito que Jesus disse, no templo, aos comerciantes. O povo tem medo da verdade, mas eu não tenho medo de dizê-la, e me odeiam só porque eu sou sincero". 
De fato, Jesus o disse, "Hipócritas!", aos comerciantes, pois Ele é o Filho do Pai, e era aquilo o que eles precisavam ouvir, em sinal de correção. Como pode um pecador considerar-se digno de condenar outro pecador? Mansidão e humildade, onde ficam, meu (inha) caro (a)? 

Não sei de onde surgiu essa vertente "cristã" que parece temer sacrifícios, restrições. De repente, de uns tempos para cá, ser cristão tornou-se fácil, como se "ser cristão" equivalesse apenas a acreditar em Jesus, ler uns mínimos versículos e compartilhar no Facebook imagem de "tem que amar todo mundo, não importa a quem". De repente, "ser cristão" é seguir playlist de bandas católicas e evangélicas no Spotify, e aproveitar esse fato para defender o ecumenismo, sem ao certo o que significa tal palavra. "Ser cristão" tornou-se sinônimo de "o que importa é o seu coração, mesmo que você seja mais apegado aos seus pecados do que ao hábito de orar". De repente, "ser cristão" é faltar a missa dominical há mais de dois anos, mas não se sentir culpado por isso, já que você faz o sinal da cruz todos os dias, antes de dormir. Tornou-se fácil, quase fácil demais, "ser cristão", e isso me parece tão destoante! Pois, se fosse tudo tão maravilhas e flores e bons perfumes e boas estações, Cristo não teria morrido crucificado, tampouco seus discípulos teriam sido ferrenhamente perseguidos pelo resto de suas vidas.
Creio que já disse isso em um texto anterior, mas me parece pertinente repetir: acreditar em Jesus, na existência dele, tanto encarnado quanto advindo do/retornado ao Pai, não equivale a viver o cristianismo, a ser cristão; conforme o dito popular, "o buraco é mais embaixo". Todos querem viver a boa parte: a efusão no Espírito, o choro experiencial em meio a uma oração, o sentimento de que poderá ser perdoado, a fogo avivador de uma adoração, de uma música, de uma formação... Mas os sacrifícios, os abandonos, as renúncias necessárias, esses poucos aceitam assumir. O curiosos é que justamente nas dificuldades, nos 'testes', nas provações, é que nós percebemos a fecundidade e, sobretudo, a profundidade da nossa fé. Ser fiel quando tudo está muito bem, quando tudo está conforme nossas expectativas, é relativamente simples, e nós sabemos disso; difícil é manter a fidelidade, a lealdade, quando tudo parece desmoronar, quanto não temos tempo, quando precisamos eleger prioridades definitivas, quando precisamos abandonar hábitos e companhias. Eu não me canso de levar dentro do meu coração a seguinte pergunte: se, hoje, acontecesse comigo o que aconteceu com Jó, eu teria a fé que ele teve? Eu permaneceria? Eu me pergunto isso sempre, sempre e cada vez mais, porque a resposta ainda é "não". E muitos de nós, mais ou menos engajados, sabemos, no fundo, que nossas respostas seriam as mesmas: "não". "não". "não". 
 Tudo o que digo aqui digo para mim mesma, pois é só por perceber que eu muitas vezes reproduzo esses discursos que eu consigo racionalizar o quanto eles são equivocados. Evangelizar nada mais é do que levar o mundo aquilo que você viveu, vive e deseja viver para sempre, e, quando eu digo que estamos fazendo isso e aquilo de errado, é porque eu sei que nós, além de precisarmos melhorar, somos capazes disso. Não é impossível, nada é impossível para Deus, nós sabemos, e precisamos colocar essa certeza em prática. Nós temos dogmas, temos uma doutrina, temos matrizes. Nós temos uma pedra na qual podemos nos agarrar, ao invés de sermos levados por uma correnteza que vai e vem, uma correnteza que esconde centenas de bueiros que nos sugam para o esgoto. Não podemos relativizar nossa relação com Aquele que é absoluto. Precisamos decidir em qual lado da espada separatória nós estaremos, ao fim.  Pois essa é a escolha que definirá o nosso caminho perante a eternidade. 

"Eu sou católico, apostólico, romano.
Há muito tempo pratico a religião.
A minha Igreja exige fé e compromisso,
Ser fiel a tudo isso sempre foi minha intenção.

A fé sem obras, já dizia São Tiago,
É uma fé morta, quase sem nenhum valor.
Assim, em meio a defeitos e virtudes,
Peço ao Pai que nos ajude a vivenciar o amor.

Mas, como eu, tem muita gente que se esquece
De vez em quando da sua obrigação.
Um só quer reza, o outro só quer trabalhar,
Como pudessem separar o serviço da oração.

Enquanto houver divisão ou parte contrária
A vida comunitária vai ser essa arengação.

Tem que varrer a igreja... mas ninguém quer.
Tem que pintar o muro... mas ninguém quer.
Tem que tocar o sino... mas ninguém quer.
Entrar no paraíso todo mundo quer!
Tem que dobrar o joelho... mas ninguém quer.
Tem que fazer novena... mas ninguém quer.
Jejum e abstinência... mas ninguém quer.
Entrar no paraíso todo mundo quer!"
Arengação - Banda Exodus





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