Eu acabei de assistir a um filme na Netflix – Homem Irracional (nome original: Irrational Man, e, sim!, enfim uma tradução perfeita). Por ser um filme do Woody Allen, um diretor meio louco de quem eu gosto muito (Zelig e Annie Hall dele são bem interessantes, recomendo), e por ter o Joaquin Phoenix no papel principal (Abe Lucas), eu esperava um filmaço, não vou mentir.
O filmaço não veio (na minha opinião, gente, pode ser que vocês achem a película incrível), mas veio coisa igualmente boa: reflexão.
Abe Lucas é um filósofo, escritor e professor, que chega em uma universidade (na qual o nome dele é super (re)conhecido) para dar aulas durante o verão. Apesar da fama no meio acadêmico, e da carreira de sucesso, o cara está bem ferrado; ele vive numa espécie de crise existencial feat depressão feat fundo do poço espiritual, e isso começou depois que ele foi traído pela esposa, que teve um caso com o melhor amigo dele. E isso piorou depois que o melhor amigo dele morreu explodido por uma bomba, no Iraque – bem trágico. Até me lembrou um pouquinho de O Lado Bom da Vida, esse negócio da traição – mas são histórias com finais bem diferentes. Enfim.
O filme tem algumas histórias paralelas à história principal: o caso do Abe com uma professora (casada!), o caso do Abe com uma aluna (comprometida!), o problema do Abe com o álcool... A espinha dorsal do filme, no entanto, é o fato de que o professor ganha vitalidade, impulso e inspiração pela vida quando toma uma decisão bem estranha: matar alguém. Após entreouvir uma conversa num café, em que uma mãe reclama de um juiz que provavelmente tirará dela a guarda dos filhos, Abe decide “agir ao invés de reclamar”, bolando um plano “perfeito” para matar o tal juiz. Para embasar essa atitude, ele afirma para si mesmo que “o mundo será um lugar melhor sem esse homem ruim, que faz uma dedicada mãe ser tão infeliz”.
Vamos pensar aqui um pouquinho: o cara foi traído pela esposa e pelo melhor amigo, e, desde então, vivia numa maré baixa (nula) de felicidade. Ao chegar na faculdade em que dará aulas, desata dois relacionamentos transgressores e nocivos a todos os envolvidos (uma mulher casada e uma aluna comprometida). Acorda tomando uísque e vai dormir tomando uísque. E, na ânsia de dar um sentido para a sua vida, ele simplesmente decidir que matar uma pessoa é a melhor forma de ajudar alguém. O ponto em que eu quero chegar é: esse é um dos filmes mais usuais para que a gente perceba o quanto o ser humano precisa de limites – entenda limites como quiser: moral, ética, valores etc. 
Quando nós estamos soltos e à mercê de nós mesmos, é incrível a nossa incapacidade para tomar boas decisões. É como se a gente fosse gradualmente fosse entrando em um buraco negro de ignorância e de cegueira, e como se a gente fosse perdendo a habilidade de agir de maneira racional; tudo vira instinto, impulso, momento. A vida se torna uma oportunidade pluralizada, múltipla e desregrada, em que o objetivo é ver quem subverte mais, quem consegue ir mais além, quem se liberta mais das “amarras impostas pela sociedade”. Eu concordo que há certos tipos de construções mentais que nos são impostas durante o convívio social, mas nós não podemos deixar de perceber que certos limites são bastante convenientes, na medida em que nos impedem de sermos pessoas tresloucadas, que são capazes de tudo, e que não se importam com as consequências de nada além dos próprios feitos – ocasionando eles o que quer que seja, da infelicidade à morte. 
E o pior é saber que há pessoas (muitas, milhares, incontáveis) que defendem isso! Defendem que os limites são, na verdade, obstáculos na vida de um ser humano, como se tudo de ruim que foi “institucionalizado” como ruim fosse, na verdade, um conjunto de coisas boas que nos foram retiradas por pessoas hierarquicamente superiores a nós – como se tudo fosse um jogo político, quando, na verdade, muitas coisas são simples questões de humanidade. Relacionar-se com uma pessoa comprometida pode parecer emocionante, por ser perigoso, por ser diferente, mas os envolvidos nos casos parecem não se importar com a degradação de um casamento, de uma união que muitas vezes já dura anos, com o desrespeito aos filhos que muitas vezes já existem, com o desequilíbrio relacional de toda uma família. No filme, Abe aparece na vida de Jill, sua aluna, e, apesar de saber do quão errado isso seria, desregula tudo: o relacionamento agradável que ela tinha com o namorado, o rendimento dela na faculdade... E Jill põe tudo isso a perder pela necessidade de viver uma “paixão” com um homem que ela não conhece de verdade, um homem de quem ela apenas montou uma ideia. Outro problema é o alcoolismo, já que, para manter a sensação de dormência que o assolava, o professor não largava a mão de uma garrafinha de uísque; é incrível nós, muitas vezes, nos condicionamos a fugir dos problemas, simplesmente ignorar a existência deles e seguir na angústia da irresolução, ao invés de verdadeiramente resolvê-los.
Eu nem preciso falar do plano de matar uma pessoa por uma “boa razão”. Já pararam para pensar na quantidade de besteiras que a gente já fez, ou que poderia fazer, em nome de uma “boa razão maior”, que, muitas vezes, nem é tão boa, e nem tão grande, assim? Mentir para os pais para ir com os amigos a um lugar barra pesada, porém “muito legal”; roubar um real da bolsinha da irmã para comprar um doce, e depois sequer perceber que está pegando dez, vinte, cinquenta reais das coisas dos outros sem a permissão deles; abdicar de um relacionamento saudável, com uma pessoa legal, de bom coração, para viver um pseudo-namoro “poligâmico, aberto e isento de estigmas sociais” com um desconhecido de quem você sequer imagina o passado; ameaçar, ou até mesmo matar alguém, porque esse alguém fez algo ruim para você, ou para uma pessoa que você conhece, ou para uma pessoa que aparentemente não merecia nada de mal. E se, a cada vez que você fosse rude ou injusto com uma pessoa, essa pessoa decidisse perseguir, assustar ou matar você? E se, a cada vez que alguém fosse rude ou injusto com você, você decidisse perseguir, assustar ou matar essa pessoa? Que tipo de vidas nós levaríamos?
O filme, apesar de ter um final que não fecha algumas portas que precisavam ser fechadas, nos faz pensar bastante sobre até onde nós vamos, e em nome de quê, ou de quem; nos faz pensar, ainda, sobre os nossos propósitos, sobre as nossas necessidades, e sobre as estratégias de que nós valemos para alcançá-los. Isso sem falar sobre a incógnita que paira sobre a difundida ideia de que “todo risco vale a pena, é melhor arriscar do que nunca saber como seria”. Será que vale a pena mesmo? Será que é tão difícil aprender com os históricos dos outros, ao ponto de que nós só podemos aprender de verdade quando é a nossa cara que se quebra?
Deixo a dica e a reflexão para vocês. Se quiserem, e puderem, assistam e leiam O Lado Bom da Vida, também (os finais do livro e do filme são diferentes um do outro!); acho que vai ser uma boa experiência comparar a maneira como os personagens das duas histórias lidam de maneiras diferentes com o caminhão de problemas que os perseguem. Os dois filmes estão disponíveis na Netflix, viu?
Deus os abençoe! #48janeirosTambémSabeSerCult

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