Infelizmente tenho o péssimo hábito de passar um tempo razoável do meu dia passeando pelo Facebook, e em um dos meus últimos passeios vi um comentário de uma garota em um post sobre o caso do bebê Charlie que terá seus aparelhos desligados segundo ordem judicial do tribunal de “direitos humanos” do Reino Unido, e senti a necessidade de escrever este texto.
Não vou passar pelos miúdos da situação e de toda a discussão que tem ocorrido nestes últimos dias, mas, basicamente, Charlie nasceu com uma doença genética que afeta o funcionamento dos seus órgãos, então, por ordem judicial contra a vontade dos seus pais, os aparelhos que o mantém vivo serão desligados e ele será assassinado para que lhe seja garantida uma “morte com dignidade”.
É sério isso?
Uma busca rápida no Google nos dá que dignidade é a qualidade moral que infunde respeito, consciência do próprio valor; honra, autoridade, nobreza. Filosoficamente, a questão da Integridade Moral de um indivíduo é algo complicado, pois existem vários pontos de vista em relação ao mundo, várias ideologias e afins, mas ainda que não exista um consenso do que deva ser uma diretriz moral que possa ser generalizada, não podemos fazer o que bem entendemos. Até mesmo uma pessoa que não siga nenhum tipo de moral não sairia fazendo o que quisesse, não seria um bárbaro, como muitos diriam, porque existe um consenso, um contrato social de valores mínimos que delimitam, ou, ao menos nos dão uma ideia, do que é certo e o que é errado. Existe um consenso¸ ao menos que seja sobre coisas mínimas em relação à Integridade Moral.
Um dos principais consensos se refere à própria vida humana. Na esmagadora maioria das culturas atualmente, a vida é tratada com uma importância e reverência única e irrevogável, ou seja, com dignidade. Ou, ao menos, era tratada. A principal questão aqui é que diversas correntes de pensamento apoiam o abandono de diversas diretrizes que, nada mais, nada menos, deram forma e mantém a sociedade como a conhecemos hoje. Nossa sociedade não é perfeita, até porque somos humanos falhos, mas isso não significa que manter a sociedade que foi construída seja a manutenção de desigualdades, injustiças e superioridade de um grupo em relação ao outro, muito pelo contrário! Como exemplo, os valores cristãos referentes à liberdade, dignidade e até mesmo a ideia de indivíduo foram tão essenciais para a formação do mundo como conhecemos hoje que, se olharmos para o Oriente Médio, onde parte da sociedade foi moldada por alguns valores islâmicos e de outras religiões orientais, há inúmeros casos em que o valor à vida ou à liberdade são totalmente denegridos e tirados sem que haja questionamento, porque, para parte daquelas pessoas (ênfase em parte das pessoas) considera aquilo justo e normal!
Alguém, por favor, me diga onde está a dignidade em ser assassinado porque você nasceu com uma condição especial que demanda atenção por parte daqueles que te circundam. Amigos e amigas, não há dúvidas de que, hoje, as pessoas preferem escolher a morte porque é o caminho mais fácil!!!
Isso se faz verdade não somente no espectro ideológico, mas no científico, prático, social. Durante muito tempo isso foi lei nas sociedades antigas, desde a época dos Jardins Suspensos, passando pela era dos Reis, a emergência das repúblicas e chegando até hoje. Só que existe uma diferença: hoje, defende-se a morte, mas de uma forma velada, hipócrita. Aqueles que se denominam pacificadores e cavaleiros da justiça social escondem por baixo dessa máscara a lei do mínimo esforço em relação ao próximo, e isso começou a se entranhar na mentalidade dos nossos jovens, dos nossos adultos. É simples notar esse pensamento eugênico e higienista na fala destas pessoas. A partir do momento em que X se torna um estigma, algo que me incomoda, devo eliminar X para que possa me livrar da responsabilidade de agir como um ser humano decente e me despojar de mim mesmo para auxiliar X ou resolver de forma racional e digna o problema que o envolva.
Uma das primeiras coisas que o comentário da garota dizia é que a matéria, que defendia que o bebê ficasse vivo, era tendenciosa. Ainda que fosse, o que realmente é tendencioso na sociedade é o fetiche que as pessoas têm por optar pela morte dos outros em casos como esses, entre outros. Manter uma pessoa ligada a aparelhos de fato é uma questão delicada e demanda muita calma, racionalidade e reflexão em relação à dignidade daquele ser humano. Agora, argumentar que isso é um tipo de tortura pelo fato de não haver “garantias” de melhora é sadismo. Existe uma diferença muito grande entre não haver garantias de que algo aconteça e de não ser possível que esta coisa aconteça. Se fossemos pensar desse jeito não há razões para dedicarmos quartos em hospitais para pessoas com câncer terminal. Já que mantê-las vivas seria classificado como uma tortura, ainda que possa ser amenizada por remédios (o que, diga-se de passagem também poderia ser feito no caso do bebê) por quê não matá-las de uma vez? É preferível desligar os aparelhos do que investir em qualquer tipo de pesquisa que possa melhorar de qualquer forma a qualidade de vida dele, no caso de uma cura ser algo distante. Aliás, levando ao absurdo e considerando algumas ideologias existencialistas em relação ao significado do que é estar vivo, por quê não matarmos todas as pessoas já que a vida é uma grande tortura e todos vamos morrer de uma forma ou outra? Não faz sentido.
Um dos argumentos mais absurdos que essa garota usou, mas que é consenso entre muitas pessoas que defendem essa posição e estão inseridos nesta Cultura da Morte, é de que, ao permitir a morte de Charlie, o Tribunal estaria garantindo seu bem estar acima do bem estar dos pais (??????????????????????????).
Tratando de outro assunto em relação a este caso, doenças genéticas são coisas extremamente delicadas e que podem, de fato, trazer muito sofrimento para aqueles que as carregam. Estas mutações são coisas tão sérias que, em diversas classes de seres vivos, algumas alterações mínimas causam a inviabilidade do organismo e abortos espontâneos. Observando essa situação, e não só esta, há várias décadas, os cientistas falam em coisas como terapia gênica dentro do útero ou fertilizações que gerem filhos “perfeitos”, ou como os pais desejarem. Não tenho tanto direito de me estender a este discussão, até porque não faço parte de um comitê de bioética, mas analisando por um viés de intencionalidade, voltamos à lei do mínimo esforço em que o fim justifica os meios. De fato, a melhora da qualidade de vida é algo nobre, mas querer moldar como será a vida desta pessoa segundo os nossos próprios interesses egoístas é tirania. Outro argumento usado é a estigmatização de tratamentos experimentais nesses tipos de situação em detrimento de estudos com embriões e afins.
Por favor, usar este jogo de palavras é desonestidade linguística e intelectual. No meio científico, ao menos no nível laboratorial, o significado de fazer um estudo é justamente a experimentação do que se teoriza. Podemos trocar muito bem, neste caso, estudo com experimental porque são praticamente sinônimos, e, muito provavelmente, este tratamento faz parte de algum estudo. A questão é que, ao usar este jogo de palavras, se esconde o fato de que experimentações com embriões, além de serem vetadas em diversos comitês de ética, arriscam diversas vidas, pois eles são frágeis justamente por estarem em seus estágios iniciais de desenvolvimento, sem falar do fato de que uma técnica muito usada é a fertilização in vitro que, neste caso, fere a dignidade daquele ser humano que é gerado em laboratório.
Problemas genéticos, de fato, são complicados, e o que mais vamos por aí é que muitos dos que lutam por igualdade e justiça, quando se trata da defesa da Integridade Moral da vida humana, preferem manter o conforto deles mesmos e daqueles que já tiveram sua defesa e seus direitos garantidos do que trabalhar para que essa próxima geração também os tenha. Como disse lá em cima, é mais fácil militar pela morte daqueles que atrapalham a nossa vida do que procurar soluções que conciliem o bem estar daqueles envolvidos na situação e trabalhar para que problemas delicados sejam evitados, ou se resolvam de formais mais fáceis mantendo a dignidade e integridade.
Infelizmente, quando as coisas ficam complicadas, é preferível matar aqueles que são inocentes do que termos uma verdadeira nobreza de nos doarmos.
Higienismo? Eugenia? Você escolhe qual estiver mais alinhado com as suas ideologias, já que os dois estão na moda veladamente.
No final, tudo se resume a um totalitarismo, e de uma das formas mais podres.
Oremos pela vida do pequeno Charlie e sua família.

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