Até alguns dias atrás você não era mais do que um clarão embarcando nas minhas memórias, alguns traços delicados de um rosto que assumo ter se desfeito há anos. Acho curioso como guardamos as coisas assim, lá no fundo da nossa consciência. Na verdade, depois de algumas aulas na faculdade acabei entendendo que nosso cérebro realmente tem dessas. O que me gasta o tempo é ficar procurando sentido para tudo isso, quer dizer, por que desenterrar algo de onze anos atrás e fazer ficar tão vívido?
Às vezes sinto que existe um certo desespero nosso quando nos confrontamos com certas partes do nosso passado e percebemos que, talvez, elas podem não mais estar do jeito que achamos que deveriam estar. Esse desespero desperta uma necessidade de tentar, de qualquer forma, provar a nós mesmos que tudo continua daquele jeito, de procurar e caçar evidências de que tudo está onde gostaríamos que estivesse, mas nós dois sabemos que não é o que sempre acontece.
Essa repentina lembrança sua fez com que eu buscasse uma maneira de alimentar a crescente nostalgia. Isso me levou a um passeio pelo meu passado na esperança de que eu pudesse encontrar a peça que eu queria colocar no devido lugar: você. Foram alguns dias de inúmeras sinestesias, lembranças e ponderações, mas não me cansei, e a gente não se cansa, não é mesmo?
Tem gente que, quando enfia algo na cabeça, dificilmente consegue tirar, ainda que quisesse. Bom, você foi o que entrou na minha cabeça nesses dias. Ao menos, depois de algum tempo essa busca rendeu o resultado que eu gostaria, mas a que preço? De que valeu te encontrar?
No começo a sensação foi estonteante. As explosões de nostalgia, felicidade, gratidão e surpresa ao ver que seu rosto maduro ainda mantinha os traços delicados das memórias de infância, que seu cabelo não mais cobria sua testa, mas evidenciava quase o mesmo sorriso, um pouco diferente,  talvez mais sereno. Foi interessante essa comparação que meu cérebro fazia ao colocar lado a lado a memória que tinha do seu rosto e a foto que via agora. Como os traços mudam. A carga de tantos anos, tantas experiências, tantas coisas escondidas por traz de cada expressão.
Pena que, como eu disse ali em cima, nem sempre as coisas devem estar no lugar que queremos que estejam, e parece que o seu lugar é longe de mim, e que o meu fica nas profundezas da sua memória, onde estou guardado, seguro de ser trazido à superfície.
É, às vezes tentar trazer o passado para o presente dói. Nem sempre o passado lembra que passamos por ele.

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