Nota do autor: Que fique claro logo no começo deste texto que a escuridão da qual vou falar não se refere ao mal, coisas vindas do inimigo ou coisas necessariamente ruins, mas sim a um estado de espírito pelo qual todos passam diversas vezes na vida.
Não sei se isso acontece em várias regiões do Brasil, ou se é característica dessa região do interior de São Paulo, mas aqui, mesmo no verão, chuvas torrenciais são frequentes. Aqui em casa temos o costume de desligar todos os aparelhos da tomada quando começa a chover com raios porque já participamos de um episódio em que um raio destruiu o transformador da rua e, bom, adeus TV's, telefones e outros eletrônicos por algumas semanas. Quando isso ocorre de tarde, gosto de entrar no meu quarto, fechar a porta, desligar a luz e deixar apenas a fraca luminosidade do céu nublado entrar pela janela. Geralmente são nesses momentos em que eu tenho os meus melhores surtos criativos. Espero que esse pequeno surto que escrevi seja um dos bons.
Ok, talvez você esteja achando agora que eu sou um louco, e de certa forma eu sou, mas sou um louco confiável. Acontece que isso é algo que eu sinto há muito tempo e só formalizei em um raciocínio do porquê há alguns dias, e isso se deve principalmente a uma belíssima música de Beethoven que ouço de vez em quando para me livrar do estresse. Chama-se Sonata ao Luar ou Moonlight Sonata (Sonata para piano nº 14, Opus 27 nº 2 para os mais íntimos). Em meus momentos de silêncio, reflexão e contemplação, gosto de colocar algumas músicas tocadas apenas no piano porque me ajudam a colocar os pensamentos no lugar, a identificar alguns sentimentos confusos e até a invocar novos. Outra que gosto bastante é uma de Debussy chamada Clair de Lune, mas essa fica pra outro texto.
Esta sonata de Beethoven é dividida em três movimentos, cada um com um "tema" e um clima diferente, em que o primeiro movimento é algo lento e melancólico; o segundo algo um pouco mais rápido, alegre, mas ainda com alguns acordes com tom misterioso; e o último dramático e intenso, rápido e cheio de notas que podem representar vários sentimentos. Por mais que a peça toda seja belíssima e uma grande obra de arte, vou me ater ao primeiro movimento, que é o que me vem à cabeça nestas tardes chuvosas.
Dizem que essa sonata ganhou este apelido (ao Luar) depois que um crítico comparou-a a um luar em um lago suíço. E por que estou falando tudo isso? Talvez grande parte seja porque adoro essa música, mas existem alguns pontos que eu gostaria de usar pra dizer o que eu quero.
Imaginar essa cena é algo arrebatador, ao menos para mim: estar em um lago, à noite, iluminado apenas pela pálida luz da lua. Nada que seja muito diferente do meu quarto agora, tirando a parte de a luz vir do sol tentando atravessar as graves nuvens de chuva. Acontece que eu me acostumei com esse clima um tempo depois de entrar no Ensino Médio. Como havia trocado de escola, que era mais longe do que a anterior, tinha que acordar mais cedo para me arrumar, tomar banho e café. Quase sempre eu levantava quando o dia estava prestes a amanhecer ou amanhecendo, e quando entrava no banheiro, gostava de apagar as luzes e deixar apenas os tímidos primeiros raios de sol iluminarem pela janela, e era nessa situação que eu pensava sobre como seria meu dia, às vezes fazia minhas orações (por que não?) e refletia sobre muitas coisas, e isso se tornou um costume.
Esses dias eu estava ouvindo essa música e pensando sobre esse meu relativo gosto por ambientes pouco iluminados e a paz que isso me traz, às vezes, e como eu gosto de ficar nestes ambientes principalmente quando estou me sentindo totalmente perdido. A princípio pode parecer estranho, mas não é o que muitos de nós fazemos quando precisamos de alguma direção? De certa forma, essa escuridão que nos cerca em alguns momentos é reconfortante. Me traz paz, por um momento, sair de todo o brilho excessivo do mundo e estar ali, quase no escuro, comigo mesmo, poder olhar para quem sou, o que eu faço, de onde vim e pra onde vou com clareza, sem medos, sem máscaras. Tem vezes que é reconfortante simplesmente descansar e deixar que os pensamentos fluam, ou até nem permitir que eles apareçam, mas por que tudo isso?
Muitas vezes vemos nossa alma cercada por escuridão. Dúvidas, incertezas, a falta de um caminho para seguir, ou desencontro são coisas que enfrentamos todos os dias e que fazem parte do breu que nos cerca. Acontece que nossa vida não é só feita de positividade. Até mesmo a matéria seria prejudicada se não tivesse seu lado negativo (os elétrons), e aqui chegamos à questão de como as coisas negativas podem ser usadas para coisas positivas. Acho que o melhor ponto, e talvez a única razão, de eu fazer todo esse ritual nessas tardes de chuva é porque, no final das contas, é nessa escuridão que consigo enxergar de onde vem a luz. Em meio a tanta luminosidade que o mundo me coloca, vez ou outra preciso apagar as luzes para enxergar de onde vem a luz que devo seguir, o caminho que devo percorrer.
Que fique claro que ainda assim estas coisas que nos cercam podem ser ruins e que não devemos cultivar algumas delas. Porém, é natural que aconteça de colecionarmos uma ou outra, o que não é ideal, mas ocorre, e também é valido lembrar que este escuro que falo é um estado que pode trazer paz. O mais bonito de tudo isso é que, no final das contas, podemos usar estas coisas que estão dentro da gente para encontrar a Luz e voltar a ser guiados por ela.

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