Oi, gente linda! Juninho aqui junto com a segunda parte daquela história que eu estava escrevendo. Espero que gostem =)

Às vezes a vida tira da gente o que a gente mais ama, as coisas pelas quais temos mais apreço. Nos tira a paz, a segurança, a animação, às vezes nos derruba até ficarmos cansados de levantar, e vai ser assim. Acabamos nos cansando, mas a vida não cansa de nos desgastar. E foi em um desses desgastes que a vida me tirou uma das coisas que eu tinha de mais precioso: minha melhor amiga.
Ainda me lembro do gosto amargo das lágrimas daquela madrugada de quarta-feira. Lembro da chuva molhando meu corpo enquanto eu corria pela rua em direção às luzes das sirenes que rodeavam a casa da Julia, dos meus pés descalços sentindo a dureza do asfalto. Tínhamos tantos planos juntas, tantos sonhos e então a vida deu o último empurrão em direção ao seu abismo. Seus cabelos emaranhados e descuidados cobriam seu rosto delicado que pressionava o chão frio, suas mãos que um dia seguraram as minhas nos momentos difíceis agora seguravam um frasco de comprimidos quase vazio.
Eu chorei. Era tudo que eu conseguia pensar em fazer naquele momento. Me ajoelhei e chorei.
Me lembro da sensação horrível dos dias passando. Estavam cinzas, chuvosos, sem qualquer traço de inspiração ou felicidade e eu não queria que eles passassem. Não queria porque eu estava parada por dentro; um blackout. Durante aqueles dias, aquelas semanas, eu simplesmente ia parando de funcionar pouco a pouco, mas prometi para mim mesma que seria forte, que passaria por isso e seguiria em frente e realizaria aqueles sonhos que tínhamos juntas. De certa forma eu tive um relativo sucesso. Consegui afastar os pensamentos ruins, as memórias já não vinham como um caminhão me atropelando. Ainda assim, e você vai concordar comigo, existem coisas dentro de nós que começam pequenas, despercebidas e com o tempo vão crescendo, marcando presença. Começam com a mão no seu ombro, passam a segurar sua mão, e quando você percebe já estão te sufocando
Eu já tinha o costume de passar algum tempo deitada olhando para o teto, e depois disso esse costume se tornou mais frequente. Foi em uma dessas observações que eu vi aquela coisinha que me chamara a atenção na noite em que a Julia morreu. Já não mais era uma coisa frágil, mas sim misteriosa. Logo em um canto do meu teto se encontrava aquela crisálida. Achei estranho o fato de ela estar ali há semanas e só agora eu ter percebido, e parecia ficar um pouco maior a cada dia.
As coisas iam relativamente bem, até que um dia, na aula de educação física, acabei machucando minha perna e tive que a engessar. Foi bem chato porque eu tinha alguns lapsos de dor e comecei a tomar analgésicos. Pelo menos era uma das últimas semanas de aula, então não tive problemas em ficar em casa, mas aconteceu que isso foi o meu maior problema.
Nós humanos gostamos de estar em movimento. Parece que não conseguimos simplesmente aceitar que não tem nada que possamos fazer porque precisamos dar algum sentido para a nossa vida, e eu acabei parando. Não só parei de funcionar por dentro, como agora estava literalmente parada, engessada na minha cama assistindo a vida dos outros acontecer enquanto eu tinha que ficar congelada no tempo tomando remédios para aliviar a minha dor, e foi ali na minha cama que eu cheguei pela primeira vez a uma conclusão que só se provou real pelo resto da minha vida: viver cansa. Viver cansa, é desgastante! Constantemente colocamos nossa cara a tapa e se não o fazemos nos sentimos incomodados por não estar fazendo nada de produtivo. Por que as coisas tem que ser tão difíceis? Por que, justo naquele dia em que estamos mais sensíveis por não termos acordado bem, a vida vem e chuta nossa cara?
Depois de tanto ser pisoteada, comecei a sentir a amargura subindo pela minha garganta, tomando qualquer sentido que ainda pudesse fazer com que eu tivesse alguma esperança de continuar tendo forças, de continuar lutando contra a tristeza. Mas essas coisas acontecem uma hora ou outra. Mesmo com tanto tempo de luta, às vezes a gente simplesmente se entrega, e foi naquele momento sublime em que me entreguei aos braços daquele bichinho azul que agora quebrava sua crisálida. Ainda me recordo da sensação de olhar para o teto com lágrimas nos olhos, dar aquele intenso último suspiro e relaxar meu corpo na cama enquanto sentia o frio subindo do meu dedinho do pé até a ponta da minha cabeça e se alojando no meu coração.
Viver dói, e às vezes, para aliviar essa dor, a gente deixa doer tanto a ponto de não conseguir sentir mais nada. A gente simplesmente se olha no espelho e sente o abismo chegando.

Deixe um comentário