E aí, gente! Aqui é o Juninho e eu tive essa ideia meio diferente em relação aos meus textos e resolvi escrever uma historinha dividida em três partes e aqui vai a primeira:

A gente gosta de espetáculo, não é? Eu, particularmente gosto quando vou ao cinema e o filme tem aquele final glorioso, quando vou ao teatro e as cortinas se fecham ao som de alguma música triunfal. É cativante a ideia de vermos algo grandioso em nossa frente. É reconfortante sabermos que não somos tão pequenos quanto pensamos ser, e era assim que eu vivia minha vida.
Demorou até que eu me acostumasse com a dura realidade que bateu à minha porta a alguns anos. Eu viva fantasiando com toda a beleza da peça, mas não parei para pensar em como seria depois que as cortinas se fechassem, e eis que um dia elas fecharam.
As coisas costumavam ser normais. Eu era a filha mais velha de duas, minha mãe trabalhava como atendente de um mercado perto de casa, meu pai era arquiteto e os dois costumavam fazer alguns artesanatos para vender nos seus tempos livres. Morávamos numa casa simples no centro da cidade e não tínhamos muitas preocupações. Eu estava no segundo ano do Ensino Médio e minha irmã terminava o Fundamental. A não ser por algumas matérias meio complicadas e algumas paixonites não correspondidas, não tinha muitos motivos para ficar estressada ou preocupada, e até sinto falta dessa época. As coisas, ainda que trabalhosas, eram fáceis. Eu tinha uma rotina de acordar, comer um pão, ir pra escola, voltar, almoçar, descansar por uma ou duas horas, estudar a matéria do dia e aproveitar o resto do dia com a minha família. Infelizmente, a vida é uma caixinha de surpresas.
Eu tinha uma amiga muito próxima no colégio, a Julia. A conhecia desde a segunda série e foi amizade à primeira vista. Para a nossa sorte, ela morava na minha rua, então voltávamos juntas da escola, empinávamos pipa por aí, conversávamos na calçada e afins. Ela sempre foi muito radiante e era meu porto seguro nos dias mais difíceis. Acho que grande parte do conforto que encontrava nela devia-se ao seu lindo sorriso, que encantava a todos. Acontece que nem tudo sempre foi um mar de rosas. Vários problemas entraram na casa dela ao longo dos anos: alcoolismo; as brigas ficavam mais frequentes; seu irmão entrando na adolescência e a rebeldia crescendo; e, por fim, a depressão. Naquela época eu era incapaz de entender como alguém que me fazia tão bem podia se sentir tão mal por dentro. Claro que, com tantas coisas acontecendo, poucas pessoas conseguiriam se manter longe da tristeza, mas não achava que as coisas pudessem ficar radicais.
Era madrugada de quarta para quinta-feira. Eu tive uma crise de insônia naquela noite que me deixou acordada por um bom tempo pensando sobre a minha vida. A casa estava bem quieta e eu olhava pelo teto, me deleitando com o barulho da chuva lá fora. Naquela noite foi a primeira vez que eu a vi. Era pequena, quase indistinguível da estampa do meu papel de parede e tinha um aspecto frágil e meio esverdeado. Não fazia a menor ideia do que ela fazia ali, mas lá estava a pequena lagarta a andar pelas paredes. Não tive muito tempo de pensar sobre isso. Lá pelas 3:40 da manhã, o telefone de casa tocou me assustando e me tirando da cama. Fui atender e acho que nada nesse mundo teria me preparado para a voz chorosa da mãe da Julia que me informava entre um soluço e outro um dos fatos que mudaram totalmente a minha vida. A mãe dela a encontrou caída no quarto. Morta.

Deixe um comentário