É sempre assim: acendem-nos o Fogo, queimamos em graça enquanto nos convém e, quando o calor nos obriga a abrir mão de algumas roupas, ou de algumas acessórios, enfiamo-nos debaixo do chuveiro, insatisfeitos com a possibilidade de renúncia, apegados demais àquilo que mantemos no corpo. E, apagados, afastamo-nos d'Aquele que nos queimou. 
Não sei se é medo, se é fraqueza, se são dúvidas e mais dúvidas de fé, influências ou a famigerada "falta de tempo"; interessa é que tão radical quanto foi o nosso retorno será a nossa partida, até que retornemos de novo para, depois, partirmos mais uma vez e, em seguida, retornar mais uma vez... E assim, como uma partida de ping pong, acreditamos amadurecer nossa fé. 
Em nossas orações, é comum pedirmos: "Senhor, concede-me a alegria de Te sentir! Se eu senti-Lo, meu Senhor e meu Deus, sei que vou ter o combustível necessário para não fraquejar na minha caminhada! Mostra-me Teu amor, Jesus!". Sei que é assim, porque é o que eu peço, também, assim como sei, apesar disso, que não devemos nem podemos barganhar com Deus. Pedir uma demonstração de poder em troca do seu serviço, ou da sua simples entrega, é o mesmo que fazer uma aposta — imagine o quão absurdo seria dizermos "Jesus, se o senhor mover a minha geladeira da esquerda para a direita, eu vou à Santa Missa hoje"! Seria o cúmulo, não? Pois bem, mas é exatamente isso o que fazemos ao condicionar nossa fé a "aparições" de Deus em nossa vida. Lembro-me de uma vez em que, num período de deserto espiritual, tive a cara de pau de "informar" a Deus, durante uma oração, que, se era mesmo da vontade d'Ele que eu permanecesse naquele caminho de orações pessoais, de estudos bíblicos, eu gostaria de perceber um sinal de Sua resposta. Sim! Pasme você! E se isso não é, antes de qualquer coisa, duvidar da infinitude do Pai, eu não sei o que poderia ser. Envergonhei-me disso depois e, mesmo assim, de vez em quando, eu retomo esse comportamento, não com orgulho, mas com a vergonha de quem tem medo e não sabe como se reportar a Ele numa situação de desespero.
E tudo isso se torna ainda mais triste quando, mesmo após vivenciarmos uma experiência com o puro Amor de Deus, insistimos em solicitar "provas" constantes da permanência d'Ele em nossa vida. Se estamos doentes, queremos que Deus nos cure, pois somos seus servos fiéis. Se faremos uma prova, queremos que Deus, não se sabe como, conceda-nos a aprovação. Se estamos solteiros, queremos que Deus nos revele a pessoa que nos acompanhará pelo resto de nossas vidas — ou pelo menos até o final do ano, para que não precisemos passar as festas "sozinho". E quando a realidade, ou poderíamos dizer a vontade de Deus, não corresponde às expectativas que nós criamos e alimentamos por conta própria, rejeitamos nossos atos de fé, por nos sentirmos traídos por Deus. Traídos por Deus, sim, porque eu sei que você, assim como eu, assim como muitos de nossos irmãos, se não todos, se sente traído e injustiçado quando não lhe é concedida, na hora solicitada, a "graça" rogada. 
Exigimos de Cristo. Exigimos. Como um funcionário que exige aumento de salário após aumento da carga de trabalho, exigimos de Cristo, sem nos lembrarmos de que o que é de César deve ser dado a César, mas o que é de Deus deve ser dado a Deus — e a nossa vida, toda a nossa vida, a totalidade da nossa existência, é de Deus, e a Ele e por Ele deve ser sustentada cada batida do nosso coração. Com isso eu quero dizer que não é minha a bondade de conceder a Deus a chance de fazer parte da minha vida. Não! Quem sou eu para me atrever a pensar que tenho o poder de "dar chances" a Deus! É Ele quem me dá uma chance, duas chances, três chances, infinitas chances, até que eu finalmente O escute, ou até chegar o momento em que será tarde demais para ouvi-Lo. É Ele, Deus!, quem é todo bondade e misericórdia infinitas. É Ele, e Ele é! Eu, com meu egoísmo, insisto em acreditar que Ele me responderá porque eu exijo respostas? Que Ele "aparecerá para mim" porque eu exijo provas? Provas? Deus não nos concede provas de existência, Ele nos concede Amor, o mais belo e eterno Amor, e isso exigência alguma nos dará, apenas a livre e sincera entrega e doação! De nada adianta viver uma experiência com Cristo, se, depois dela, eu sou incapaz de caminhar com minhas próprias pernas, sem conseguir manter a certeza de que a cada passo Ele permanece comigo, mesmo que eu não possa vê-Lo, Ele continua comigo. Somos, portanto, a geração de Tomé: queremos ver para crer. Mas feliz é aquele que não vê e, ainda assim, crê, e se nós esperarmos para crer apenas depois de ver, de onde tiraremos garantia de que haverá tempo? E se a última chance de crer for anterior ao primeiro milagre de ver? Os cegos que Jesus curou nos Evangelhos só acreditaram na cura depois de serem curados, ou eles se ajoelhavam perante o Cristo ainda em cegueira, por saberem que Aquele era o único capaz de lhes conceder a visão? 
Passamos a vida reclamando das pedras no meio do caminho, à la Drummond, sem percebemos que nós mesmos é que somos as pedras. E por quanto tempos mais viveremos assim? Repito: há tempo?
Você acordou hoje. Hoje, seus pulmões se encheram, e você respirou. Você teve comida, e comeu. Você andou. Estudou. Trabalhou. Você viu sua família, seus amigos: você os viu acordados, vivos, respirando. Você sorriu, ou chorou, se irritou, se desculpou, ou ainda tem a chance de se desculpar. Você andou no meio da rua e não foi assaltado, ou foi assaltado e não tiraram a sua vida. Você viu o sol, sentiu a chuva, seu rosto sentiu o vento. Você leu esse texto. Não percebe?
Desde o momento em que, hoje, abriu os olhos, você vive um milagre. Você é um milagre. Nós somos um milagre.
O que mais você quer? Já não é hora de parar de exigir e começar a fazer? Ou, pelo menos, a agradecer? Reflita:
Certa vez, houve uma terrível enchente. Destruiu completamente a cidade, e muitas pessoas, para garantirem a sobrevivência, subiram aos telhados de suas casas, ficando ilhadas. Dentre essas pessoas, havia uma mulher solitária, mas que a qualquer um gritava que tinha muita fé. E, ao ver pessoas sendo arrastadas pelas águas, enquanto permanecia ilhada em seu telhado, dizia: "Eu não vou temer: Deus vai me salvar!". Após certo tempo, passa, em frente ao telhado dessa mulher, um bombeiro, num bote salva-vidas. E ele diz: "Senhora, venha comigo! Eu vou lhe salvar!". Mas ela achou que o bote era pequeno, e, com medo, gritou: "Não! Não! Nós dois não caberemos juntos nesse bote, eu vou cair, a água vai me levar, e eu não sei nadar. Prefiro esperar: Deus vai me salvar!". E por haver ainda muitas pessoas precisando de ajuda, o bombeiro foi embora, pensando: "Tentarei voltar depois". Após mais algum tempo, passou, em frente ao telhado dessa mulher, um policial, dentro da capota de um carro, da qual ele tinha se aproveitado para tentar ajudar as pessoas. E ele disse: "Senhora, venha comigo! Eu vou lhe salvar!". Mas ela achou que a carcaça era frágil, e, com medo, gritou: "Não! Não! Essa carcaça se romperá com o peso de nós dois, eu vou cair, a água vai me levar, e eu não sei nadar. Prefiro esperar: Deus vai me salvar!". E por haver ainda muitas pessoas precisando de ajuda, o policial foi embora, pensando: "Tentarei voltar depois". Já era quase noite quando o vizinho daquela mulher, tendo improvisado um barco com pedaços de madeira, passou pelo telhado e disse: "Senhora, estou indo procurar minha família, mas podemos procurá-los juntos. Venha comigo, eu vou lhe ajudar!". Mas ela achou que o barco não suportaria tantas pessoas, e, com medo, disse: "Não! Não! Sua família é numerosa, será muita gente para um barco só, eu poderia cair na água, e eu não sei nadar! Prefiro esperar: Deus vai me salvar!". E o homem, ansioso por encontrar sua família, foi embora, pensando: "Tentarei voltar depois". Entretanto, assim que ele partiu, uma onda formada pela correnteza derrubou a mulher de seu telhado, e ela não resistiu ao impacto. Ao chegar ao Céu, atordoada, encontrou-se com Cristo. Ao reconhecê-Lo, pelo esplendor da Luz que emanava, a mulher questionou: "Senhor! Deus! Eu morri? Mas, Senhor, eu confiei que seria salva, eu confiei em Ti! Por que não evitou que eu morresse?". E Deus, num suspiro entristecido, respondeu: "Filha... Por três vezes eu tentei lhe salvar, foram três as chances que eu lhe dei. E, a todas, você recusou".

3 Comentários

  1. Obrigada por esse texto! Obrigada por me mostrar que o hoje é um lindo milagre. Ao ler o texto está frase veio forte em meu coração: quero tanto o extraordinário, mas esqueço que no ordinário, no comum da vida, Deus fala e age.
    #ohojeeummilagre
    #agradecer

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    1. Fico super, super feliz que tenha sito tocada!
      Deus te abençoe

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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