Mãe, eu choro! 
Eu choro, desesperada, porque sou fraca, porque sou pequena, por me sentir tão medíocre perante um Deus Eterno. Quem sou eu, mãe, quem sou para achar-me digna de algo? Não sou nada! Minha fé é, ainda, leve como a pena desprendida que, com um vento - vento às vezes forte, vento às vezes brisa - se afasta da ave de sua origem. Eu sou a pena desprendida, mãe! Eu sou aquela que se perdeu no meio do caminho, aquela que não sabe em que terra pousará. 
Mãe, eu choro! 
Eu choro de dor e de angústia, eu choro de medo, eu choro de raiva de mim mesma, e de vergonha de invocar meu Pai. Envergonho-me, admito, e, no meio de um jardim belo e florido, no qual entrei por convite d'Ele, abaixo meus olhos e só enxergo o barro lamacento. Há flores, há verde, há pequenos filetes de sol que banham meu corpo, mas eu não os enxergo, eu, em minha amargura, sou capaz, apenas, de sentir uma terrível tempestade a desabar sobre mim
Mãe, eu choro: eu não consigo! 
Por que Ele me chama, se não avanço, por que Ele me exige, se sou covarde, por que Ele me pede, se não me disponho inteiramente a dar-me? Mãe, o que Ele quer de mim, se eu só tenho a oferecer o meu nada?
Leva o meu desespero aos pés do teu Filho, que é Deus. Mãe, mãe amada, mãe sublime, mãe bem - aventurada (e assim a chamo porque assim me ensinou a lhe chamar)... Recolhe minhas ofertas, minhas pobres e únicas ofertas, manchadas e sinceras ofertas, e entrega-as, por favor, aos pés chagados d'Aquele que sofreu infinitamente mais que eu, e por mim! Recolhe de mim, mãe, os méritos dessa mísera alma que, apesar de mísera, é adornada por expectativas de alcançar o Céu. Confirma a Ele, mãe, que eu não me sinto pronta, mas que eu creio: Ele me aprontará. Confirma a Ele, mãe, que eu fujo... Eu fujo!, é verdade, mas também é verdade que a senhora me resgata pelas mãos e não me larga, não me solta, não me abandona, nem mesmo quando eu finalmente prostro-me perante o Santíssimo Altar. Mãe, tu, que és fortaleza humilde e servil, acompanha-me nessa ponte bamba que é a minha caminhada, e me leva, ainda que sob o jugo do cansaço e das tentações de desistência, à glória de pertencer definitivamente ao seleto grupo dos predestinados. Mãe, enxerga minhas vulnerabilidades, me ajuda a fazer destas as minhas maiores estratégias de resistência e, sobretudo, de evangelização. Auxilia-me, mãe, no mergulho tranquilo, ainda que devastador, da Palavra; ajuda-me, mãe, que sozinha eu não posso, e foi meu Pai quem ensinou-me a chamá-la assim: mãe.
Mãe, chove... Chove granizo em mim, em meu ser, em minha alma, e eu sinto dor, eu sinto frio. Ajuda-me, mãe, a escapar, pois, desse frio, dessa gelidez, dessa nulidade... Faz-me serva desse Amor que é fogo! Ata-me ao fogo do Espírito, e que n'Ele eu queime pelo resto dos meus dias terrenos, e por toda a Sagrada Eternidade!...
Acolhe-me como filha, e eu a reconheço, hoje e sempre, como verdadeira mãe.
Tu, Maria: sacrário vivo. Tu, Maria: a bem-aventurada. Tu, Maria: aclamada e convocada. Tu, que, ao longe, enxerga-me curvada, de olhos ao barro, e, num grito de angústia, corre por entre as flores, que não vejo, enche-se dos seus aromas, que não sinto, e acoberta-me com teu manto, protegendo-me e amando-me, mostrando à tua filha que, finalmente, em teu colo, há calmaria.

"Tranquiliza, já, teu coração, menina, que não és órfã. Sou tua mãe; em mim gerou-se Aquele que te perdoa e te salva, e, ainda por meio de mim, Ele te buscará. É promessa: Ele te buscará. E comemoraremos, juntas, a tua entrada em um jardim no qual jamais tornarás a abaixar teus olhos, pois o Único digno de ser visto habita, desde o princípio e até o infinito, o Alto
E para o Alto olharás, e do Alto nunca mais fugirás".

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