Pergunte a uma mãe que deu à luz em parto normal, se o amor dói, e ela dirá que sim, dói muito. Pergunte a um pai que acompanha seu filho em um tratamento hospitalar, mensalmente, lutando contra uma séria doença, se o amor dói, e ele dirá que sim, dói muito. Pergunte a um casal que está em união há anos, há muitos anos, e que já enfrentaram crises e diversos problemas, se o amor dói, e eles dirão que sim, dói muito. Pergunte a uma jovem que precisa esperar mais de um ano o namorado voltar de um intercâmbio em outro país, se o amor dói, e ambos dirão que sim, dói muito. 
Pergunte a Deus, que recebe uma flechada em Seu coração a cada pecado que cada um de nós cometemos, se o amor dói, e Ele dirá: 
"Dói tanto, tanto, que a sua humanidade não lhe permitiria compreender". 
Vivemos uma era de banalização da veracidade do Amor. Ah, e que era forte!
Amar transformou-se em um passeio por um campo florido, repleto de aromas naturais e eternos, onde nunca chove, onde o sol nunca é forte demais, onde o frio nunca incomoda, onde a brisa é ideal, onde nada nos atinge ou preocupa. Amar transformou-se em Brasil na ditadura: "Ame-me ou deixe-me", ou seja, ou serei aceito e acolhido como sou, ou o outro que desista de manter-me por perto; transformou-se em "não mudo por nada, quem quiser que se apaixone pela versão de mim que eu mesmo criei". Amar transformou-se em libertação de compromissos: comprometer-se, de uma hora para outra, tornou-se sinônimo de aprisionar-se e, nessa prisão, afluir numa intensa infelicidade. Amar transformou-se em libertação de renúncias: o que querem para mim e o que eu quero devem ser incógnitas que se encaixam com a perfeição de um quebra-cabeças. Amar transformou-se, sobretudo, em libertação de sofrimentos e provações: quem ama e é amado não chora, não sente angústias, não padece de males espirituais, não enfrenta dificuldades. Amar transformou-se em manter um relacionamento só até o ponto em que as minhas expectativas correspondem ao comportamento do meu parceiro, ou da minha parceira (e por isso temos jovens que "namoram descontroladamente", em busca de algo que jamais encontrarão; digo isso com propriedade, pois já fui uma jovem assim); amar transformou-se em encanto, em conto de fadas, em historinha que nos satisfaz enquanto nos oferece um final feliz. 
E trouxemos esse amor estranho para a nossa relação com Deus. É o nosso maior defeito: querer transformar em Divino aquilo que é mundano. 
Engana-se quem pensa que Deus se adaptará aos nossos planos. Engana-se quem pensa que seremos acolhidos a troco de nada. Engana-se quem pensa que rezar o Santo Terço, frequentar a Santa Missa e ler, meditar e viver a Palavra nos livra de batalhas; o Terço, a Missa e a Palavra não são as soluções. Eles são as armas, as armas para enfrentarmos as inúmeros provações pelas quais passaremos em nossa carreira como cristãos. 
Não adianta ajoelhar-se fisicamente perante o Altíssimo, se a sua alma permanece de pé, sendo a sua guia, ao invés de Jesus. Não adianta confessar-se sem arrepender-se, verdadeiramente arrepender-se do mal que provocou ou cometeu. Não adianta abrir a sua boca e pregar a guerra contra o pecado, enquanto se permanece pecador. Não adianta rezar o Pai Nosso sem atentar-se ao "seja feita a Vossa vontade", mantendo como imperatriz a vontade humana. Não adianta frequentar o grupo de oração enquanto a chama da fé está em fortes labaredas, e afastar-se dos seus irmãos quando vem o deserto espiritual. Não adianta servir a Deus aos finais de semana, e ao mundo de segunda a sexta; dois senhores, duas vidas, e você só tem direito a uma. Não adianta.
Pertencer a Deus, compor o seu exército, pode ser fácil, se você admitir que é Ele quem dá as ordens: as ordens na sua vida, as ordens nos seus estudos, as ordens na sua família, as ordens no José ou na Maria que aparecerá em seu caminho (ou as ordens a respeito da sua verdadeira vocação), as ordens sobre quem é bom manter ao lado etc. E isso requer o abandono de costumes, de vícios, de sentimentos que nos condenam à tentação constante. A cada pecado que cometemos, aumenta-se um degrau na escadaria que nos leva ao Céu. É preciso estar disposto; a porta é estreita, estreitíssima, e, quando chegar o momento de serem trancadas as fechaduras (e o momento se aproxima), você pode chegar atrasado, a depender do tempo que levará para vencer todos os degraus. 
Você acha doloroso e angustiante o sofrimento de Jesus na cruz? Acha? Pois imagine tal sofrimento, dia após dia, hora após hora, segundo após segundo: é o que Ele sofre, quando Seus filhos, que conhecem o caminho, insistem em perder-se. Ele entregou-se à morte, para que você tivesse a vida, e o que predomina em você é o medo do sofrimento, e não a gratidão e os esforços para fazer jus ao que Ele fez por nós? 
Madre Teresa nos ensina: "O amor, para ser verdadeiro, tem de doer. Não basta dar o supérfluo a quem necessita, é preciso dar até que isso nos machuque". 
É preciso estar atento: as provações pelas quais você passará na face da Terra não se assemelham, não se equiparam, sequer se aproximam do perecer eterno daqueles que viram as costas para os desígnios do Pai. Amém?
Amém!

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