Hoje à tarde o céu estava meio fechado. Era mais um daqueles dias cinzas e eu estava tomando um chá quente enquanto assistia ao jornal. Olhei por um instante para a decoração da sala e vi a quantidade de quadros que preenchiam as estantes. Várias fotos nossas, várias memórias registradas para que pudéssemos apreciá-las a qualquer momento. Sei que você não tem o costume de passar muito tempo por aqui, mas queria poder tirar mais fotos contigo e, quem sabe, comprar uma nova estante para colocá-las.
Fico chateado por você estar aí fora, mas não queria te segurar aqui, afinal, sua vida está bem corrida e talvez você não tenha muito tempo para passar comigo de qualquer forma.
Bebi mais um gole do meu chá, sentindo bem o cheiro característico que, de certa forma, me recorda você. O velhos pêndulos do relógio continuavam seu tic tac, algumas madeiras rangiam e um vento frio vinha da janela que deixei aberta. Fui para o quarto pegar uma coberta para colocar sobre minhas costas e não pude deixar de fitar a paisagem por alguns instantes.
Sabe, ando meio preocupado com você ultimamente. Seu semblante tem ficado cada vez mais fosco, aquele brilho nos seus olhos parece estar apagando. Você começou a andar um pouco mais arcado do que o normal. Parece até que está olhando mais para o chão. Eu sei que as coisas estão difíceis e até achei que uma conversa pudesse ajudar, mas você fugiu quando chamei seu nome. Disse que estava apressado e bateu a porta sem nem se despedir direito, mas eu percebi que hesitava em ir.
Não é a primeira vez que você faz isso e não vai ser a última. Mas eu gosto de como em todas elas o desfecho foi o mesmo. Por mais que passe algum tempo, sempre te ouço bater à minha porta chorando e querendo um aconchego, um carinho, e por que não o daria? Adoro te receber aqui em casa. Aí você entra, deita a cabeça no meu colo e deixa que as lágrimas caiam e molhem toda minha camisa, mas não tem problema.
Eu sei o quão grande é o seu desejo de sempre estar por aqui, de morar comigo para tomarmos chá durante as tardes, conversarmos sobre nossa rotina e, quem sabe, jogarmos alguma coisa juntos. Sei também o quanto te machuca essa distância e não posso te culpar. Por mais que você tenha seus afazeres e suas obrigações, seu coração não se esquece de onde ele veio, a onde ele pertence, e é por isso que fico a todo instante olhando pela janela da frente para ver quando você está chegando.
Ah, filho, vem aqui. Me dá um abraço, deixa eu acariciar esse rosto, dar uma arrumada no seu cabelo.
Sinto sua falta sempre que você foge. Fico sempre olhando para os nossos quadros enquanto espero te ver correndo pra cá ou ouvir suas batidas na porta.

A cada dia que passa as coisas ficam mais difíceis e parece que o peso sobre as minhas costas só aumenta. A vontade de chorar se tornou constante na minha rotina e acho que até perdi minha capacidade de criar laços com outras pessoas. Por mais que eu tenha alguns momentos para relaxar, sinto como se algo me pressionasse sem cessar, como se meu peito fosse esmagado numa tentativa de suprimir vários sentimentos aqui dentro.
Eu sei que eu não devia fazer isso, mas é tão confortável me forçar a não sentir algumas coisas. É como se o trabalho de não criar nenhum tipo de esperança, de não deixar durar nenhuma alegria e tentar não sorrir mais do que julgo o necessário fosse menor do que me esforçar para manter um certo nível de felicidade na minha vida.
O que é fato é que estou cansado de tudo isso. Não faz mais sentido gastar toneladas de energia só para afogar meu coração nesse oceano escuro, tampouco para tentar resgatá-lo a todo custo. No final das contas me sinto a deriva esperando que alguém estenda sua mão e me salve de afundar, mas eu sei que ninguém vai. Não é tão simples assim.
Quando se vive com esse tipo de peso nas costas tudo fica complicado e meio cinza, e não é algo que eu possa controlar. Só algo que posso lutar contra. É como se fosse um balde embaixo de uma torneira bem forte. Por mais que às vezes a água transborde ou extravase, sempre terá mais para enchê-lo de novo.
De fato, as coisas não são fáceis quando se está longe de casa.
Às vezes, andando pela rua, sinto aquele cheiro do seu chá e sinto uma enorme saudade da sua sala bem arrumada, do sofá cheio de almofadas, mas principalmente dos nossos quadros. Sempre me pergunto se você me aceitaria de volta depois de ter partido daquele jeito. Eu sei que já fui embora várias vezes e sempre fui acolhido quando voltei, mas parece que agora foi diferente. Eu não devia ter sido tão rude, por mais que estivesse irritado, ora, você sempre me amou do jeito que eu estivesse.
Acho que o que vence não é nem o desânimo ou a profunda tristeza que machuca meu coração, mas sim a vontade e necessidade de te ver de novo, de voltar pra sua casa. Por mais que eu não tenha forças, lá no fundo sinto uma faísca que me impulsiona a caminhar todo o caminho de volta para os seus braços, Pai, e sei que essa faísca vem de Você.
É incrível como seu rosto está ali na janela sempre que estou passando pela frente do seu quintal, como seus braços me envolvem da mesma forma que da primeira vez, como sua voz me acalma e me traz segurança. Segurança essa que me faz deitar minha cabeça sobre seu colo e derramar todas as lágrimas do meu oceano.
Ah, Senhor. Tu sabes que eu gostaria de ficar para sempre contigo e que essa distância machuca, mas o que mais machuca é o fato de eu não ter força o suficiente para não abrir a porta e sair correndo, muitas vezes. Como eu gostaria que nossos reencontros se tornassem um grande encontro.
É aqui, nos seus braços, que percebo o quanto preciso de Ti na minha vida. É onde encontro forças para continuar caminhando e é onde Você deixa aquela faísca pra que eu tenha a força necessária para voltar e ser todo Teu mais uma vez.

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