Não são poucas as vezes em que nos sentimentos cabisbaixos, mazelados, feridos. Em certos momentos, nossa vida parece ótima, ao nosso redor as coisas vão até muito bem; mas, por dentro, sentimo-nos desestabilizados. Sentimo-nos esburacados. Falta-nos algo. Olhamos ao nosso redor, vemos nossos parentes sorrindo, nossos amigos brincando, nossos estudos se acumulando, nosso trabalho se multiplicando, nosso tempo se esgotando... E a nossa vida passa, dia após dia, sem que possamos nos sentir completos. Mais uma vez: falta-nos algo. Estamos tristes, sensibilizados. Somos atingidos por golpes invisíveis. Nada é suficiente. Nenhuma alegria basta. O pouco é simplesmente pouco, o muito não serve. Somos mergulhados nesse conflito incompreensível, no qual não entendemos o porquê de nos sentirmos assim; somos assolados por dúvidas que nos desesperam. “Tantos tem tão menos que eu... Do que eu estou reclamando? Por que eu me sinto assim? Eu não tenho motivos para me sentir assim! Eu tenho tudo de que preciso, não tenho?”.
Será que tenho mesmo?
É histórico: a ciência nos explica que, desde os “primeiros hominídeos”, a procura por um Deus existe. Desde o início, admitia-se um Poder Supremo, que criava e comandava tudo e todos, e esse Poder era reconhecido, louvado, adorado da melhor maneira possível. Ou seja: a busca por Deus está em nossas veias. Ainda que inconscientemente, acreditamos que haja uma ordem para o mundo, e a crença — imensa ou do tamanho de uma pulga — de que exista um poder ordenador persiste em nossas mentes. E, de fato, existe!
Veja bem: o mundo é um encaixe de perfeições; as correspondências são exatas. Como acreditar que tudo isso é fruto do acaso? Não pode ser, e não o é. O nosso Deus não é um Deus de coincidências, Ele é um Deus de amor. Tudo o que existe, principalmente nós, os seres humanos, somos fruto do transbordar do Amor do Pai. Ele é a nossa origem! Fomos feitos por Ele, para vivermos por Ele e, ao fim, retornarmos a Ele. Portanto, mais cedo ou mais tarde, nosso coração sentirá a necessidade de encontrar-se com a sua Semente, e ele só sentirá sossego após esse encontro. Isso significa que não importa quantos vezes você tente calar essa necessidade; ela retornará. Ela incomodará a sua alma, até você compreender que não há escapatória: é hora de voltar para casa.
Quantos de nós, me digam, crescemos dentro da Igreja? Quantos de nós vivíamos indo aos grupos de oração, às missas? Quantos de nós achávamos “legal” bater palmas e cantar nas celebrações? Louvar era uma festa para muitos, e nós sem sabíamos que o nome daquela festa era louvor. Quantos de nós achávamos o máximo a ideia de participar da comunhão? Nossos pais recebiam a Eucaristia e nós queríamos ir junto, nem que fosse só para dar uma espiada. Quantas vezes nossos avós não nos levaram para sentar nos primeiros bancos da Igreja, e nós achávamos o máximo enxergar o Altar tão de perto? Quantos de nós fomos batizados? Quantos de nós fomos catequizados? Quantos de nós fomos crismados? Quantos de nós, talvez, conhecemos a vocação de uma comunidade e nos apaixonamos por ela? Quantos de nós ouvimos o chamado? Quantos de nós nos sentimos convocados para o ministerial de música, de intercessão, de pastoreio? E quantos de nós, apesar de tudo isso, nos afastamos? Quantos de nós chegamos a uma determinada idade e cansamos de procurar? Quantos de nós desistimos de ter um encontro com Deus? Quantos de nós permitimos que as (des)crenças de amigos influenciassem e abalassem a nossa fé? Quantos de nós acreditamos ter conhecido a “liberdade” ao finalmente abandonar as “prisões da religião”? Quantos de nós nos enchemos de orgulho e satisfação ao dizer: “eu não acredito em um livro escrito por homens tão pecadores quanto eu”? Quantos de nós nos deixamos guiar por um surto de intelectualidade ao definirmo-nos como “agnósticos”, “deístas” ou até mesmo “ateus”? Quantos de nós passamos a questionar a Imaculada? Quantos de nós duvidamos que o Céu exista, ou duvidamos que o Inferno seja mesmo esse “eterno sofrimento” que “todos os fanáticos falam”? Quantos de nós acreditamos que a salvação estaria em outra fé? Quantos de nós acreditamos que, para nós, não haveria mais salvação?
O mal quer nos desvirtuar. A todo instante. Desde que nós nascemos. Uma vez, apresentaram-me a uma metáfora incrível: Deus e o diabo têm um álbum de fotos, e em cada foto há a imagem e o nome de cada um de nós. À medida em que eu me aproximo de Deus, a minha foto vai se apagando no álbum do diabo, e ele não suporta perder-me para o Bem. Por isso, quando ele vê uma foto se apagando, ele começa a agir na vida daquela pessoa, tentando tomá-la a partir das suas maiores fraquezas: se você sente muita carência, ele tentará conturbar a sua afetividade; se você é cético, ele tentará destruir a sua fé; se você é sensível, ele tentará causar-lhe grandes tristezas, para que você se revolte contra o seu Deus; se você é ganancioso, ele mostrará meios mais fáceis de conquistar o poder. O diabo fará de tudo para a ter a sua foto no álbum dele. Por outro lado, quando Deus percebe que uma de suas fotos está se apagando, Ele corre ao resgate do seu filho. Ele tenta, de todas as formas, falar com você: através da sua consciência, através de sinais, através das pessoas que estão ao seu lado. Deus corre ao seu encontro, Deus luta contra as artimanhas do diabo, tudo para que a sua foto volte a ficar nítida do álbum d’Ele. Deus corre em socorro dos que mais fraquejam perante o mal, e o diabo corre para aprisionar aqueles que mais procuram a Deus.
E, agora, eu quero falar diretamente com você, que está lendo este texto. Não sei de onde você é, quais são os seus sonhos, não posso saber os planos de Deus para você. Não sei se você me conhece. Não sei pelo o que você passa, não sei quais são as suas batalhas, não sei quais são as suas alegrias. Não sei quais são os caminhos que você trilha. Não sei, sequer, se compartilhamos a mesma fé. A única coisa que eu sei é que esse vazio no seu peito, esse sentimento de falta, é sinal de que a sua foto está se apagando no álbum de Deus. É sinal de que as artimanhas do inimigo estão sendo mais promissoras do que as suas orações. Aliás: você tem orado? Você tem conversado com Deus?
Eu sei, eu sei que pode ser difícil. Eu sei que o coração se revolta com o fato de muitas pessoas ao seu redor darem testemunhos e mais testemunhos de experiências com Deus e você aí, se sentindo esquecido. Eu sei, também, que você não entende o porquê de Deus não falar mais com você. Sei, também, que você não entende o porquê de Deus ter permitido que você se afastasse. Se Ele queria tanto a sua vida por perto, por que deixou que você fosse embora?
Mas você foi embora porque quis. Ele deu o livre arbítrio a todos nós, e a desistência foi sua, e não d’Ele. Não podemos penalizar Deus pelas nossas fraquezas; as escolhas são nossas. Somos testados constantemente, e não devemos desabar perante os testes! Lembre-se de Jó, que sofreu paus e pedras em sua vida e, apesar de tudo, acreditou em Deus até o fim. Ele foi recompensado, não foi? E eu lhe digo: procure no mundo o quanto quiser. Tente preencher o vazio do seu coração com o que quiser. Tente sanar essa sensação de carência com outras pessoas, a escolha é sua, eu repito. Tente resolver por conta própria. Nada vai adiantar. Nada vai mudar. Nada vai se transformar enquanto você não perceber que Jesus é o molde que preenche o seu vazio. Nada vai se transformar enquanto você não perceber que a capacitação só virá quando você pedi-la a Quem pode dá-la. Nada vai se transformar enquanto você agir em nome de si, e não em nome do Pai. Você poderá ter tudo! Conquistar tudo! E nada será suficiente, nunca, porque você ainda não terá reencontrado a sua Semente. Então, abra os seus olhos:
 é hora de voltar para casa. Ainda que, conscientemente, você nunca tenha estado nela.

2 Comentários

  1. Pode parecer estranho, mas hoje após ler algumas coisas na Bíblia eu me senti estranha, com medo, um vazio bem estranho, sabe aquela sensação de que nada fez efeito? Mesmo lendo sobre fé e amor. Um tempinho depois entrei no facebook e dei de cara com o link desse texto e até chorei lendo, lembrei de quando conversei com a minha tia e ela disse que Jesus é meu amigo por completo, que Ele sempre está comigo. Deus age até nas coisas pequenas, mas que são feitos enormes para o nosso coração. Adorei o texto e a página também, muito fofa, com certeza serei uma leitora assídua!

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    1. Fico imensamente feliz por esse texto ter chegado a você. Deus está contigo sempre, mesmo que você não note. É difícil, mas, juntos e em oração, conseguiremos! Nossa conversão é diária! Deus te abençoe e guarde, e que Maria te acompanhe em todos os teus caminhos, intercendo por ti e te libertando dos medos. Forte abraço!

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