Eu estava na mesa, sozinho, beliscando alguma coisa antes de finalmente me jogar em casa. Queria prolongar aquele tempo perdido, aterrissado nas ruas solitárias daquela cidade tão mais interessante e cheia de possibilidades do que meu apartamento mal iluminado.
Entre esses minutos em que refletia sobre teorias conspiratórias e deveres da faculdade, eu vi você. Ali, perto da porta, com a cabeça apoiada na janela. Parecia cansada, mas não anulava o ar angelical. Os cabelos negros desarrumados sobre os ombros, o suéter aquecendo as mãos pálidas... Eu vi você. Não me viu de volta, não foi recíproco. Mas eu a vi. E você estava linda.
Talvez se deva a isso, ou a tudo o que se passou pela minha cabeça naquele momento, o meu ato impulsivo ao te ver enxugar as lágrimas, contar as notas na bolsinha de couro, dirigir-se ao caixa e se jogar pelas ruas frias da cidade. Sem pensar, pago o que devo e a sigo só para poder observá-la um pouco mais. Não queria te perseguir ou invadir sua privacidade. Mas você parecia ter saído de um daqueles meus sonhos confusos onde de relance aparece um anjo e eu sei que tudo vai ficar bem.
Talvez eu estivesse vivendo um sonho naquela hora. A pressão em voltar à monotonia do meu quarto, às paredes cinzas e aos móveis empoeirados, sendo abruptamente desfeita por uma bela moça de saia branca, coturnos e suéter marrom.
Você, para a minha surpresa, não saíra correndo pelas ruas gélidas em busca de um taxi. Estava ali, encostada no muro vizinho, com as mãos nos bolsos e o olhar fixo em algo que até hoje não sei descrever. E, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, começou a falar sobre como o céu estava bonito e em como é um pavor ter que ficar longe das estrelas por todo o dia. E ali eu soube que hoje você estaria aqui, comigo. Entre os lençóis de uma cama extensa, no nosso calor que não é todo nosso, mas o dividimos com o moletom e as meias compridas. Você deitada em meus braços e eu me sentindo como se houvesse aberto uma passagem secreta para o topo do túnel. Não era só uma luz, era toda a claridade. E, então, as coisas finalmente fizeram sentido. Eu sou grato por isso.

7 Comentários

  1. Que saudade dos teus textos Nath ♥ Essa sutileza é tão linda. "Entre esses minutos em que refletia sobre teorias conspiratórias e deveres da faculdade, eu vi você. Ali, perto da porta, com a cabeça apoiada na janela." Tão lindo.

    ResponderExcluir
  2. Que lindo texto viajei até lá e vivi aquela sensação q nem sei como explicar

    ResponderExcluir
  3. Gostei muito da forma como você consegue descrever possibilidades e sonhos (vivos e mortos), certezas e talvezes. Fico imaginando como seriam histórias inteiras escritas por você. Seriam grandes e profundos romances, daqueles que as pessoas precisam ler para voltarem a prestar atenção na importância dos relacionamentos.

    ResponderExcluir