A foto é aleatória, mas quero postar mais fotos minhas (não que eu saiba tirar fotos, mas amo fazer isso  <3).


Eu o vi entrar pela porta de vidro, mas não foi correspondido. Despreocupado, cumprimentou a moça sentada no banco e começou a falar do tempo, de teorias libanesas - ele era libanês, pelo o que chequei em seguida - e sobre ter ido no endereço antigo, sem saber que o consultório havia mudado de lugar há alguns meses.
Passados alguns minutos de conversa, de alguma forma misteriosa que eu não soube identificar, o assunto foi parar nos mortos. O foco era as pessoas de ambas famílias que foram levadas pelo câncer. E, entre elas, a esposa daquele senhor.
"Ela estava com sessenta e oito", diz, com pesar.
"Meu irmão foi com cinquenta e seis", conta a moça.
E, sem perceber, minha boca decidiu entrar na competição, coisa da qual logo me arrependi. Mas foi tarde, já que eu já havia dito:
"O meu pai com quarenta e oito".
Comoveram-se e perguntaram o motivo. Embora eu não tivesse certeza, respondi um assassinato distraída e foquei meus olhos na tela do computador. Muito trabalho para colocar em ordem, pouco tempo para dramas pessoais.
Após alguns minutos onde minha fraca tentativa de encerrar o assunto foi esquecida, o senhor mais uma vez se voltou a mim, dizendo:
"Você é muito bonita, mas às vezes parece triste. Pelo seu pai, eu imagino".
"Está tudo bem", eu respondo. "Faz algum tempo, já estou melhor".
"Quanto tempo?", pergunta ele.
"Pouco mais de um ano".
"Ah", ele suspira. "Perdi minha esposa há dezenove. Dezenove e longos anos. E ainda dói, menina. Ô se dói. Antes, a gente tomava café de tarde com algumas xícaras de porcelana do casamento. Hoje eu não tomo café, e tive que guardar as xícaras todas, o bule e tudo mais. Joguei o pó fora, o coador, tudo. Não faz sentido. Era nosso café, agora não existe mais nosso. Agora tudo é meu. E eu não gosto de ter coisas que não sejam dela".
Eu sorri e fiquei pensando, enquanto ele já emendava outro assunto completamente aleatório com a moça na sala de espera.
Por que é que nós temos essa necessidade de parecermos fortes? Essa necessidade de esconder o jogo, de viver superficialmente, de não tocar em assuntos pessoais. Se eu fosse realmente sincera, naquele momento, diria que estou melhor. Eu estou. Mas não foi fácil chegar a esse estado.
Eu chorei por meses e perdi a vontade de fazer as coisas. Eu queria gritar e queria que o mundo se calasse para me ouvir, porque guardar aquela dor só no meu peito estava sendo pesado demais. Diria que não existe um único dia que eu não sinta falta dele e o mundo não pareça menor e com menos sentido. Mas agora está tudo bem.
Está
tudo
bem,
senhor.
No começo foi difícil. Algumas dores conseguem nos cegar temporariamente. Às vezes a gente acha que só nós estamos sofrendo e que o mundo é injusto. Queremos gritar e fugir de nós mesmos porque viver a realidade costuma ser o pior pesadelo.
E aí o tempo vai passando e você começa a ouvir uma voz em meio aos ruídos que antes não conseguia ouvir. Uma voz que, calmamente, diz: "Filho, eu estou aqui. Descanse em meus braços".
Quando se está nessas condições, você não quer melhorar. Só quer sofrer mais porque desacredita numa solução, muito menos possui forças para lutar por ela. Você se conforma com a dor e procura formas diferentes de senti-la, mas sozinho não consegue eliminá-la por completo.
Depois de tanto me recusar, a voz gritou tão forte que foi impossível não ouvir. E eu chorei. Chorei por não saber o que estava fazendo e chorei por estar me recusando a melhorar e, consequentemente, me aprisionando ainda mais naquela dor. Mas eu a ouvi.
E me acalmou. Me mostrou, pacientemente, que não era o fim do meu mundo. Havia um longo caminho por trás das montanhas, mas eu não queria subir para ver. Fui incentivada a mudar isso. Doeu, as pernas estavam cansadas e fiquei ofegante a maior parte do caminho. Mas a dor melhorou. A saudade fica e ainda tem uma dorzinha que insiste em continuar. Mas dor nenhuma consegue cegar nossos olhos quando eles estão fixos no alto. E é isso o que fazemos para continuar.

9 Comentários

  1. Oi, tudo bem? =) Achei seu texto lindo e muito comovente *w* A metáfora da montanha foi incrível ♥ Perder alguém deve ser muito doloroso... Ás vezes gosto de pensar que fulano não morreu, ele viveu.

    Ah, e a foto está muito bonita :3

    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Sei exatamente o que você sente. Não perdi meus pais, graças à Deus, mas eles estão velhinhos, e por mais que seja difícil admitir, não sei se amanhã eles irão me acordar e dizer: "Bom dia, Sarinha! Dormiu bem?" ou então dar-me conselhos sobre a vida e como vivê-la corretamente. Dias destes, meu pai disse-me algo que me tocou profundamente: "Filha, sei que você pode enjoar de eu ficar falando sobre a vida sem parar para você, mas veja bem, não sei se amanhã estarei aqui para falar contigo sobre a inflação e juros alto, ou te contar as minhas experiências. Aproveito cada segundo para te mostrar à vida, pois pode ser o meu último." Nesta hora, meu mundo desabou. Não há um dia em que eu não me preocupe e não peça à Deus mais anos de vida com os meus pais. Por um lado, sinto a tua dor. Mas estou orando e pedindo à Deus que conforte teu coração. Lembre-se de uma coisinha: as pessoas não falecem. Elas se transformam em estrelas para dar espaço à novas pessoas aqui na terra, e iluminar o universo para encherem os nossos olhos e nossos corações de felicidade e orgulho por quem elas foram.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu Deus, que comentário! Eu agradeço muito pelas suas palavras e desejo tudo de melhor para sua família. Um abraço <3

      Excluir
  3. Você é muito incrível sabia?
    Não sabe como acaba sendo uma inspiração para tantas pessoas (inclusive pra mim) simplesmente sendo essa pessoinha muito especial que é.
    Você vai longeee, menina <3

    ResponderExcluir
  4. Nathalia, vou te dizer uma coisa... Você colocou neste conto tudo o que eu senti e venho sentido nos últimos tempos! De uma forma repentina, eu perdi meu pai no início do ano passado e desde então pude passar por um lado do sofrimento que eu ainda não havia passado, de fato. A morte de alguém que se ama. Lembro que no dia em que tudo aconteceu, um rapaz da igreja que congrego me olhou e disse "você tem um Pai que é eterno", sabemos disso mas é difícil não nos entregarmos ao sofrimento da partida, porém, como você disse "dor nenhuma consegue cegar nossos olhos quando eles estão fixos no alto". O amor de Deus nos constrange, nos toca a seguirmos em frente, apesar da saudade e das coisas que mudam na vida. Sabe o que o seu conto me lembrou? Uma música dos Arrais que começa dizendo "Eu olhei a tristeza nos olhos e sorri"... Não sei se você conhece, mas se não, ouça agorinha mesmo. Vai na alma. Poderíamos olhar a tristeza nos olhos e fugir, mas temos este amor do Pai Eterno que nunca se acaba, que levanta nosso rosto pra podermos olhar nos olhos de todas as dores, e simplesmente... sorrir.
    Texto maravilhoso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu Deus! Só quem já passou por isso sabe como é, não tem como explicar esse sentimento... mas Deus conforta sempre. A gente só precisa aceitar, o resto Ele faz. Que Ele te abençoe muito e guarde sempre o seu coração! Muito obrigado ♥

      Excluir
  5. O relato nos recorda como existe um tipo de comoção coletiva excessiva diante da morte. As pessoas se deleitam diante dela, como que celebrando: quanto mais, melhor. E o triste, por mais que paradoxal, é que se comovem sem a base necessária. Tantas vezes celebram a dor pela dor. A desgraça pela desgraça. Da taça da desesperança todos procuram beber porque os passos não se dão adiante, mas sempre para um passado de dores irrespondidas, perdões não considerados. Inclusive sempre lembro do assombroso sucesso do Kardecismo nestes tempos por conta dessa geração que não perdoou o suficiente enquanto devia, e agora procura evocar seus mortos para que perdoem o que morreu neles mesmos, e há tanto tempo. Como sempre, você descreveu lindamente a situação toda, Nathalia, com um final surpreendente repleto de metáforas, um deleite para os olhos e o coração. Vivamos no Senhor que é o Deus da vida e esperança!

    ResponderExcluir