Independente do que dissessem a respeito, suas mãos não deixariam de deslizar pelo papel tão cedo. Os pensamentos estavam longe como nunca estiveram antes. Ele não desenhava assim tão bem, um traço ou outro, no máximo. Sabia que aquela representação nunca chegaria perto da beleza de seus olhos num dia claro, quando ele já não conseguia parar de fitá-los.
Apagou diversas vezes os olhos, havia cismado com eles. A boca, o nariz, o cabelo também não estavam tão parecidos, mas o problema maior eram os olhos. Ainda não eram os olhos dela, e para chegar perto de tamanha perfeição levaria mais meses de aula, coisa que nunca se importou em fazer.
Acontece que era tudo de lembrança. Ele já não tinha mais nada além de uma foto velha no celular, e dificilmente encontraria aqueles olhos novamente. Tentou procurá-los em outras pessoas, mas jamais conseguiu encontrar. Não era assim tão fácil. Ele sempre soube que ela seria única, mas às vezes, quando nos acostumamos com algo, não nos importamos mais em valorizá-lo. Estão ali mas não estão, e foi o que houve com ele. De repente já não era mais a mulher de sua vida, só mais uma mulher que há tanto tempo estava por perto. E ele foi se cansando do calor de suas mãos, do seu perfume único e até da forma com que ela sorria.
E foi difícil pra ela. Ah, se foi. Ela deixou de dormir algumas noites e perguntou a Deus o que é que havia acontecido. Mas nunca obteve resposta. Então ela saiu de perto, desacostumou, quebrou a rotina. Foi viver um pouco por ela, coisa que não fazia há anos. E ele nunca mais teve notícias, nada além daquela foto velha, porque ela não se importava com redes sociais e ele excluiu suas fotos do celular enquanto estavam juntos, porque eram tantas fotos, não havia motivos para deixar todas ali. E uma por uma se foi. Só sobrou aquela, porque ele costumava dizer que era sua foto mais bonita. Mas um dia ele parou de dizer, e se dissesse, ela não acreditaria.
Desde então ele fica ali, sentado no balcão dos bares na tentativa de chegar perto daquelas lembranças, enquanto os amigos planejam várias atividades que para ele já não têm importância. Ela sempre disse que ele desenhava de tudo, menos ela. Mal sabia que agora ele desenhava, porque poderia criar diferentes feições, e naquela foto só havia uma. Doía passar pela sua cabeça que talvez nunca mais a tivesse por perto. Nunca mais sentiria o calor de suas mãos, o cheiro de seu perfume ou veria a forma com que ela sorria. E pior: nunca mais veria aqueles olhos que, independente de quantas vezes desenhasse, nunca eram tão belos como os dela.
No fundo, ele era uma boa pessoa. Sabia que não possuía o direito de mexer em tudo aquilo que ela custou a curar. Ele não era mais digno de fitar os seus olhos, e, ainda que fitasse, não seriam os mesmos olhos. Já não havia tanto brilho como antigamente, perdeu-se na maré de decepções que ele deixou quando pediu que ela fosse embora. Agora ela foi, e possivelmente não voltará mais.

40 Comentários

  1. Ai como esse texto ficou lindo. Eu senti aqui o sentimento do eu lírico, toda a dor da saudade, da esperança de conseguir reproduzir aquilo que se foi... Ficou maravilhoso, parabéns! Beijos
    Desfocando Ideias

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  2. Que texto lindo ! Voce escreve muito bem *-*

    http://dividindouniverso.blogspot.com.br/

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  3. Que texto lindo, fiquei encantada do começo ao fim. Muitas vezes me vi na menina do texto, que dedicava todo seu tempo a um cara, perdia o sono, se perguntava o que havia acontecido etc... Mas é como você coloca, sair de perto as vezes é a melhor saída, e depois que acostuma nem dói mais tanto. O problema é que alguém sempre se arrepende, mas aí já é tarde, né? Se os personagens realmente existissem, eu torceria para esse cara nunca mais encontrar a menina. Quem não dá valor quando pode, não merece dar quando perdeu.

    www.tresestacoes.com

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    1. Acho que todas nos vemos, né? Sempre acontece, não necessariamente com a menina, mas acontece. É horrível mesmo, sempre um se arrepende, mas aí a coisa já não é a mesma, as pessoas mudam e nossa visão delas também :/ eu torço também! Um beijo <3

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  4. Meu deus, que texto lindo menina, posso postar no tumblr com seus crêditos ? ♥
    Apaixonei neste texto, tão triste e tão profundo, sempre que venho aqui tenho que juntar lencinhos, ficou lindo mesmo, parabéns ♥

    i-n-the-clouds.blogspot.com.br

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    1. Claaaro, que honra <3 que linda você, um beijo!

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  5. Aquela velha história de que só valorizamos o que perdemos e que nunca levamos a sério até constatarmos a verdade disso. Texto muito profundo.
    E por sinal, o nome do blog (que me chamou muito a atenção assim que entrei e constatei que não era você que tinha os 48 janeiros - vi o link no meu blog e achei q seria você) é ainda mais profundo. Homenagem linda! *-*

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    1. Ah, muito obrigada, Camila! Eu até pensei em 16 janeiros, mas a homenagem ficaria meio incompleta uhahauha um beijo <3

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  6. lindoooooo!!!!! <3
    http://www.leiturateen.com/

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  7. Nossa, isso acontece muito! Queria poder dizer que não :/
    Infelizmente, às vezes estamos no lugar da menina. Nos dedicamos, "corremos atrás" e o cara não dá valor. Então cansamos e forçaos o nosso coração a esquecer dele.
    E, por outro lado, quem nunca esteve no lugar do cara, que atire a primeira pedra. Não na mesma situação de não dar valor a quem gosta da gente, mas no caso de só dar valor quando perdemos..

    Ótima lição você passou no texto!
    Beijos,
    www.domingodeinverno.blogspot.com.br

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    1. Pior que é verdade! Sempre tem aquela pessoa que gosta da gente, mas tem aquilo que ela faz, tal pensamento, tal jeito, e acabamos nos afastamos :/ você está certíssima. E muito obrigada, moça! Um beijo <3

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  8. Nossa que lindo Nathalia, triste profundo e verdadeiro.
    O problema da rotina é deixar os sentimentos se acostumarem também.
    Beijos
    http://tecontopoesia.blogspot.com.br/

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    1. Realmente, Camila. É terrível quando as coisas param de ter valor para nós.
      Muito obrigada, um beijo <3

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  9. Guria, que espaço fofo o seu <3 Você é tão nova e já escreve tão bem, muito sucesso! <3

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  10. lindo lindo demais e ao mesmo tempo triste e real :(

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  11. Eu queria saber o porquê de sentir um aperto no peito toda vez que leio um texto teu. É lindo! Não é um aperto ruim ueuhe, é... Não sei, acolhedor. *-* Eu andei meio afastada da blogsfera, mas, nossa, que saudade da sua escrita, Nath <3 Adorei o texto, é tão lindo quanto todos que você faz, a propósito, sempre acompanho teus desenhos nas redes sociais, são lindos. ^^
    Um beijo
    Yasmim Gil
    http://cirandadeflores.blogspot.com.br/

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    1. Volta, Yahhhh <3 ah, que amorzinho de pessoa você é. Muito obrigada! Um beijo <3

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  12. é por isso que eu nunca mudei minha vida por um garoto kkkk brincadeira, seu texto é tão real, e prende do inicio ao fim, não é como muitos "agua com açucar" de romance adolescente (mesmo que seja). acho estranha essa forma de se prender e privar de tudo por alguém , e olha que sou casada kkk mas o sentimento de libertação é sem igual.
    belas palavras, e o espaço encantador, como sempre

    Desconstruindo blog

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    1. Obrigada, Tia! É bem ruim mesmo quando isso acontece, mas sempre amadurecemos né hahaha um beijo! <3

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  13. Texto maravilhoso, mesmo que melancólico... Bjos!

    http://sonhos-empoeirados.blogspot.com.br/

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  14. Que texto lindo, eu muitas vezes me vi na menina descrita no texto, aquela boba apaixonada que faz tudo pelo o seu amor e que no final das contas, não recebe o devido valor. É difícil perceber que não damos valor a algumas coisas quando perdemos :/

    www.leitecombiscoitos.com

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    1. Isso é verdade! Sempre está acontecendo, né? Muito obrigada <3 um beijo!

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  15. Nathalia, que texto mais LINDO!
    Caramba, fiquei arrepiada com a intensidade das palavras. Você escreve muito bem!
    Já vou seguir seu Blog :)

    Beijos,
    #fiquerosa

    >> http://www.fiquerosa.com/ <<

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  16. Esse texto me emocionou bastante pelo fato de parecer ter narrado a separação dos meus pais. Me tocou bastante e peço-lhe permissão para envia-lo a meu pai por e-mail (com os créditos e o link do seu blog).
    Sabe... ainda é muito difícil falar sobre o assunto, me acostumei com a falta do meu pai em casa, mas ainda me sinto só, sinto que se ele estivesse aqui, as coisas poderiam estar bem melhores, de uma forma ou de outra. Belissímo texto e palavras ♥ "As vezes, quando nos acostumamos com algo, não nos importamos mais em valorizá-lo..."

    www.pumpcolor.com.br

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    1. Caraca, La, vai ser uma honra!! Eu te entendo. Meus pais se divorciaram também, foi difícil na época (a culpa foi da minha mãe), e meu pai foi morar longe. O que quebrava meu coração era estar longe dele, que sempre foi a pessoa mais grudada comigo e tal. Aí agora dia 04 de dezembro ele foi assassinado, e imagina como eu fiquei, né? Mas toda sorte pra vocês! Um beijo <3

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  17. É impossível não se identificar com esse texto, acho que todos já passaram por situação parecida, talvez até conhecendo os dois lados da história. Às vezes nos dedicamos demais a alguém que não nos dá o devido valor e demoramos para perceber que o melhor é se afastar, porque vivemos naquela contradição entre querer estar perto porque ainda amamos e precisar ir embora porque reconhecemos que merecemos algo melhor. E outras vezes, estamos tão absortos em nós mesmos, que não sabemos valorizar quem está ao nosso lado e quando percebemos o nosso erro, já é tarde demais, porque já perdemos aquela pessoa.

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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    1. É bem assim mesmo, Lena. O amor faz com que larguemos mão do nosso orgulho, e isso pode acabar sendo bom ou ruim, né? Abraço!

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