As botas encharcadas, a calça pingando e a mochila cheia de livros danificados pela chuva: aquele era meu status. E no intervalo entre correr a um lugar seguro e chegar a ele, estavam as pessoas me olhando correr na chuva, sem se importarem por meu rosto estar inchado ou não.
Sentia-me como se estivesse sendo ingrata com Deus por me sentir daquela forma. Havia tantos motivos para alegrar-me!
Permito-me correr um pouco mais na chuva. Não por opção, como sempre. Nada nessa vida estava vindo por opção, mas por imposição. Há algum tempo eu só estava tendo perdas, e tenho a consciência de que nenhuma delas foi por escolha minha.
Sentia um vazio tão grande em saber que não levaria broncas pelas roupas molhadas, nem pela possível gripe que se seguiria ao ocorrido. Ninguém saberia que eu estive ali, muito menos perguntaria o motivo. Eu poderia desaparecer e sabe-se lá quando olhariam minha cama bagunçada e perguntariam se eu estive presente nos últimos dias para arrumá-la, porque sabem que, embora eu tenha pouco tempo, sempre odiei minhas coisas fora de ordem.
Lembro-me de ter pensado, na última vez que dormi abraçada com meu pai, que ele era a única pessoa que sempre estaria comigo. E quer saber? Eu estava errada. Acertei em acreditar que me amaria até o fim, mas ele não estaria para sempre comigo. Os minutos que mesclam a saudade e o arrependimento se cumpriram no momento em que acordei, me arrumei para a escola e beijei o seu rosto adormecido, em despedida. E pela última vez eu tive a certeza de que ele sentia o meu toque. Pela última vez eu tive a certeza que o veria novamente. E eu estava errada, mais uma vez.
Santa Terezinha do Menino Jesus dizia que a vida é um instante entre duas eternidades. E era assim que eu me sentia. Perdida naquele instante, ingrata por sofrer por um motivo que não fosse Cristo, e mais ingrata ainda pelo vazio que me acompanhava. O vazio que me fazia sonhar com a segunda eternidade, na esperança de que aquela dor aliviasse um pouco. A gente sempre prefere buscar o que está distante do que enfrentar algo que nos machuca, e eu não sou diferente.
E quando finalmente cheguei em casa encharcada, ninguém realmente notou e, embora eu falasse, minha voz foi a única que ecoou naquele lugar. Então tomei um banho quente, troquei as roupas e coloquei as molhadas para lavar. E depois do frio veio um calor aconchegante, que reforçava em mim o sentimento de que eu não estava sozinha, independente das perdas que havia tido. Você não está sozinha, repeti. E, fitando um quadro de Nossa Senhora, pude lembrar quantas perdas a mais do que eu ela teve, e como foi forte e permaneceu fiel.
Talvez devesse entender que a fortaleza é um dom dado aos fracos. Talvez fosse exatamente aquele sentimento que me faria entender que eu sou, surpreendam-se: humana! Humana e dependente, dependente de um amor maior para confortar o meu coração e me pedir confiança. Confie, filha, Ele me dizia. Vai ficar tudo bem, você vai ver. Por um tempo tentei abafar os ouvidos com minha teimosia, mas em certo momento tive que me render e ouvir o que tinha para me dizer. E isso me confortou naquele dia.
E eu adormeci tranquila, em paz... feliz.

11 Comentários

  1. É muito difícil lidar com perdas, já perdi pessoas extremamente importantes na minha vida, com o tempo a dor ameniza, mas nunca cicatriza totalmente, no fim, a gente acaba sobrevivendo, ficam as boas lembranças e as saudades que sempre apertam o coração. O sofrimento é inevitável, mas vai ficar tudo bem!
    Esse texto realmente tocou meu coração!

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    1. Poxa Lena, eu te entendo. Sério mesmo! Meu pai foi assassinado em dezembro do ano passado e ainda é bastante difícil, mas aos poucos, como você disse, a dor ameniza.
      Fico realmente muito feliz por isso. Abraços! ♥

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  2. Que texto incrivel. Senti na pele o que você sentia nesse momento e meus sentimentos, de verdade. Guerreira, é a palavra certa|! Um beijão

    Eu.Nomadiando

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  3. Estaria mentindo se dissesse que não fiquei emocionada com suas palavras. Sabe, sempre existirão esses momentos difíceis de lidar, mas você está sempre lutando contra ele, e isso é realmente admirável. Com certeza posso dizer que você é um grande exemplo de pessoa pra mim, sempre lutando, sempre tentando ser forte e buscando incansavelmente à Deus. Tenho certeza absoluta de que seu pai se orgulha muito de você, assim como muitas outras pessoas.
    Com o tempo a dor pode ser transformada em algo positivo, e a sua dor se transforma em um texto que acaba ajudando muitas outras pessoas.
    Beijos, Naah. E olha, nunca deixe de ser essa pessoa que traz um amor no coração viu?!

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    1. AH, coisa linda da minha vida. Muito obrigado! <3

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  4. Nossa!! É possível ler seus posts e não se emocionar? Eu me identifico muito com tudo que posta, foi até um dos motivos que estão me levando voltar escrever num blog que eu tinha, mas havia desistido de escrever. Serio, uma bela forma de chegar e levar Deus pertinho do coração das pessoas. Parabéns! Salve Maria!

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    1. Ai, que linda!! Me manda esse blog aí, quero conhecer também <3 muito obrigada, querida. Um beijo!

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    2. http://somentesonhoserealidade.blogspot.com.br/ ☺

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  5. Olá Nathy, que maravilhoso vc compartilhar da sua dor que foi cuidada com amor eu tmbm perdi meu pai muito cedo, a perda de uma pessoa amada é algo que nos rasga por dentro que nos deixa feridas, mas pra quem tem Deus ela é apenas uma passagem, por isso que Jesus nos ensina a amar como se não houvesse o amanhã e Santa Terezinha da qual sou devota nos diz que nossa vida é um brevíssimo segundo então que possamos amar só amar. Um grande abraço

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