Ao levantar os olhos, percebi alguém parado na porta de vidro. Era um senhor daqueles bem velhos, com óculos redondos apoiados sobre o nariz comprido e uma expressão sincera e gentil no rosto um tanto enrugado.
- Bom dia, senhora. Eu tenho uma consulta às oito horas.
Achei um tanto engraçado o fato de ser chamada de "senhora", nos meus dezesseis e pouco, enquanto ele deveria ter bem mais de sessenta, embora eu não seja boa com precisões.
- A sua identidade, por favor.
Aquele senhor passou o RG perfeitamente cuidado (ao contrário do meu, que possui mais rasgos do que letras) e, enquanto eu atualizava seu cadastro, sentou-se em uma poltrona e apanhou algumas revistas para ler.
Eu bem sei que, em alguns quesitos - praticamente todos - as gerações passadas passam a perna em nós, e comunicação é um deles. Aquele senhor sabia que revistas não eram melhores do que uma boa e calorosa conversa.
- Eu tenho noventa e sete anos, minha filha. Noventa e sete - diz ele, quebrando o silêncio, certa hora. - Nove filhos. Eu tinha doze, mas três faleceram. Eu sempre quis que meu caçula fosse engenheiro. Você sabe como é, está em alta hoje em dia. Todo mundo quer ser engenheiro. Bem, até começar a faculdade de engenharia - ele sorriu. - Com meu menino foi assim. Começou engenharia, seis meses depois ele largou. Preferia desenho animado. Minha esposa não gostou muito, eu já me senti culpado. Não deveria ter opinado. Mas sabe, menina, algo que aprendi com meu filho, depois de tantos anos vivendo, é que temos que seguir nosso coração. O dinheiro é apenas consequência. Você tem que ver, minha filha, o sorriso que toda a família dá quando ele cria aquelas animações de televisão, daquelas que mostram a esposa implicando com o chinelo das crianças enquanto elas correm por aí, e eu sentado na cadeira, lendo alguma literatura antiga com minha mulher. É uma delícia. E ele casou, hein? Sem essa de que mulher quer homem com dinheiro, corpo sarado, super inteligência. Não existe isso, filha. É passageiro. A esposa do meu caçula é linda, linda mesmo, só não supera a minha - ele sorri. - Ele já tem dois filhos e quatro netos. Eu estou com nove filhos, dezoito netos e seis bisnetos. Dá para acreditar?
- Não, não mesmo - disse eu, apaixonada por cada palavra que saía de sua boca, implorando para céus e terra que ele não parasse de falar. - E sua esposa?
Seus olhos se incendiaram com um brilho diferente, enquanto seus lábios formaram um belo sorriso, daqueles que nada nesse mundo, além a felicidade de alguém que soube viver a vida direito, poderia comprar.
- Ah, ela é linda! Daquelas mulheres que você não encontra em qualquer lugar. Ela tem valor, minha filha. Eu queria tanto poder pedir a Deus que me deixasse viver essa vida toda de novo ao lado dela. Eu faria tudo de novo, desde as primeiras cartas, os encontros no lago, as vezes que dei os morangos mais bonitos para ela... tudo! Tenho muita sorte por tê-la, minha filha. Por toda a minha família, na verdade, mas tudo começou por ela. Tive sorte de ter fé, encontrar uma mulher incrível, me casar e viver uma vida extremamente feliz, embora tenha tido suas dificuldades. Agora só estou tentando me manter mais um pouquinho vivo, só mais algumas manhãs vendo o sorriso dela, embora não sejam mais os dentes de setenta e dois anos atrás. É só isso o que eu quero. Dias tranquilos para finalizar uma vida tranquila.
Lamentei-me de ter que levá-lo à sala do doutor. Já chegara sua vez, embora eu quisesse ouvir mais.
- Obrigado, minha filha - disse ele, quando anuncio a hora de sua consulta, levantando-se com esforço. - Você é uma boa ouvinte.
- E o senhor é um bom contador de histórias - digo, esperando que se recusasse a entrar e continuasse a falar. Mas ele só agradece e segue para a sala, deixando a garotinha sedenta por histórias para trás.

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