"Uma palavrinha, dona - disse ele, mancando de dor -, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo - árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que Nárnia não exista. Assim, agradecendo sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que as nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz." As Crônicas de Nárnia - A Cadeira de Prata
Quem me conhece sabe que As Crônicas de Nárnia é o meu livro favorito, e esse trecho pode dizer muito sobre o cristianismo. Nessa ocasião, as crianças estavam presas no subsolo e uma feiticeira tentava convencê-las de que Nárnia não existia, assim como todo o mundo fora do subsolo. E algo que sempre achei muito interessante foi a resposta que a feiticeira teve, porque é exatamente como me sinto quando alguém vem me dizer - e isso acontece com grande frequência - que Deus não existe.
Li em algum lugar, certa vez, que a grande questão não é como Deus permite tanto sofrimento no mundo?, mas como viveríamos num mundo tão mau sem a presença de Deus?, e isso explica muitas coisas. Se Deus não existe e tudo o que vimos acontecer em Seu nome nesses dois mil anos de Igreja seja apenas ilusão, embora eu não imagine como seríamos capazes de tantos feitos, eu simplesmente não vejo outro sentido para desejar viver.
Se é verdade que nunca existiu um homem que morreu numa cruz por amor a mim, que me amou a ponto de perder todo o seu sangue, e se eu estou sozinha nesse mundo, e eu simplesmente irei crescer um dia, viver uma vida comum e morrer, sem nada a mais; se é realmente verdade que Ele não está aqui ao meu lado, e todo esse mundo mau esteja a ponto de me ferir, por que, mas por que eu iria querer viver aqui? Qual seria o outro sentido para a vida senão amá-Lo?
Então mesmo que Deus não exista, embora eu tenha a certeza de que Ele existe, eu viverei por Ele. Levarei a cruz no peito mesmo que Cristo não tenha ressuscitado. Eu serei cristã independente de qualquer coisa, porque o que me espera lá no céu - ainda que não exista céu - é muito maior do que tudo que a Terra pode me oferecer.

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