O tempo estava frio. Frio demais. O vento forte atirava meu cabelo rebelde no rosto de forma brutal, mas eu não ligava. Abracei minhas pernas contra o corpo e repousei a cabeça sobre os joelhos. Eu sabia que estar na rua em uma noite gélida me deixaria doente, mas eu não me importava.
Eu só precisava de um momento sozinha. Sei lá. Sempre soube que era inútil chorar por coisas assim. Se um passarinho morre, sabemos que chorar não vai trazê-lo de volta, mas as lembranças dos momentos em que o passarinho parecia eterno sempre voltam para nos ferir ainda mais e nos provar que estávamos errados. O passarinho morreria um dia, você aceitando isso ou não. E era o que estava acontecendo comigo.
Eu não possuía algo que lembrasse o mundo das vezes que pudemos brincar juntos. Tudo foi levado pelo forte vento que chicoteava no meu rosto e não voltaria mais. Não adiantaria sair correndo tentando apanhar o que o vento levou; tudo havia se perdido, voado para aquele lugar que abriga histórias belas que nunca serão humanamente lembradas.
E ali, agachada na noite escura, começo a pensar no quão egoísta é o meu choro por causa do passarinho. Ele realmente havia partido e ninguém se lembraria mais de sua existência que um dia fora tão importante, mas quando olhei para o crucifixo em meu peito, foi como um choque para mim. Por menor que pareça, nenhuma dor é insignificante. Eu aprendi isso em um retiro que servi, quando recebi oração de uma missionária da comunidade Canção Nova. Chorei em seu peito e ela me abraçou, ouvindo o motivo do meu choro aparentemente interminável.
E mesmo que nenhuma dor seja insignificante ou boba, a vida não está livre de sofrimentos. Passarinhos vêm e vão o tempo todo. Uma hora vão estar bicando nossos dedos, outra estarão se atirando na frente de um carro qualquer, sem deixar rastros. Mas a partir do momento que entendemos o sentido do sofrimento e o entregamos à cruz de Cristo, tudo parece tão pequeno. Lembramos que alguém sofreu por nós e que há um céu nos esperando no fim da vida, e aí aprendemos a organizar nossos sentimentos e a oferecer nossa dor a algum bem maior.
Então decidi voltar para casa, tomar um banho e beber um copo de leite quente. Sentei em minha cama e comecei a rezar, entregando todo o caso do passarinho nas mãos de Deus, e Ele me consolou. Adormeci no travesseiro quente, enrolada nas cobertas e com algumas gotas de remédio do céu em meu coração.

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