Eu não sabia onde estava ou de onde vinha. Estava assustado. Nem minha própria identidade pertencia mais a mim; até ela eu havia perdido. O que eu estava fazendo naquele lugar? Quais foram minhas escolhas que me levaram até lá?
Eu sabia da existência dEle. Sabia onde encontrá-lo e também que Ele teria as respostas para as minhas perguntas. Mas eu não podia dar o braço a torcer. Era claro a todos que eu não pertencia a Ele, que não me rendia a Ele. Qual seria o sentido de voltar agora? Estaria sendo hipócrita. Quando recorri a Ele, não me atendeu. O que mudaria agora?
Eu simplesmente queria fugir daquilo tudo. Começar a correr. Mas correr para onde? Mal sabia quem eu era, como saberia o lugar certo aonde ir?
E então, quando meus pés começaram a doer mais do que eu conseguiria suportar e o cansaço começou a tomar ainda mais conta de mim, foi ficando mais difícil resistir. Meu corpo estava manchado, machucado, denegrido por todas as escolhas erradas que fiz em busca de liberdade. Eu já não lembrava mais meu nome.
Aos poucos comecei a sentir aquele aroma de rosas que me invadiu sem pedir permissão. Não sabia de onde vinha ou para onde iria, mas a sensação era tão prazerosa que eu só queria mais. Então comecei a seguir a origem do aroma, até dar as caras num belo jardim. Eu hesitei. Olhei através das grades e lá estava Ele, sentado. Seus olhos não demonstravam ódio como eu imaginava. Não havia sombra de receio quando me olhou, não gritou o quão ingrato eu era ou me mandou sair dali. Só me olhava, em silêncio.
Em momento nenhum Ele pediu que eu entrasse, embora eu sentisse que as grades estavam abertas caso eu quisesse entrar. Devagar, chequei e estava certo: realmente estavam abertas. Fitei seus olhos. Eles eram claros a ponto de me fazer enxergar toda a minha alma. A verdade é que, no mais íntimo da mim, eu queria chegar mais perto. Queria sentir o cheiro de rosas diretamente de Sua pele. Queria saber o que todos diziam sentir que eu nunca havia conseguido.
E então, com um susto, ouvi Sua voz chamando meu nome. Todo meu corpo reagiu àquele som. Era uma voz doce e sábia. Precisei de alguns segundos para me dar conta de que aquele era meu nome que há muito eu havia esquecido. Embora eu não soubesse mais quem eu era, Ele sabia. Sempre soube.
Deixei meu orgulho atrás das grades e comecei a caminhar lentamente ao Seu encontro. Precisava conhecê-lo melhor, desvendar o mistério de minha existência corrompida. Não resisti ficar longe quando vi Sua beleza que há tanto tempo vinha me recusando a ver. Nos seus olhos, mostrava-me tudo aquilo que eu precisava saber sobre mim mesmo, sem medo de me machucar. A realidade era dura mas, por alguma razão, não doía. Eu sabia que Ele me ajudaria a mudar.
Enquanto meu olhar transparecia minhas fraquezas, o dEle toda a força da qual eu precisava. Seus olhos formaram espessas lágrimas e um sorriso foi esboçado em Seu rosto tão rígido. "Eu esperei tanto por você", diz. Meu corpo se arrepia com o som de Sua voz, todo o meu orgulho cai em ruínas e me entrego. Abro os braços e permito-me ser abraçado. Eu quis ser todo dEle e Ele quis cuidar de mim. E foi aí que entendi o porquê de tudo. Não tornei-me dEle, já pertencia a Ele. Meu coração foi programado para Ele e até aquele momento não havia descansado. Tudo o que havia em mim buscava a Ele e, depois de tanto tempo de sofrimento, finalmente o encontrei.


Texto inspirado pela música Eu Vou Além - Flávio Amorim

2 Comentários

  1. Só Deus sabe o quanto eu precisava ler isto hoje. Só ele sabe como meu coração desejava sentir esse ardor. Obrigada.
    Beijos da Bru <3

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    1. Coisa linda da minha vida, não sabe o quanto isso me alegra! ♥

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