Sou redirecionado aos pés da cruz de Cristo. Sinto-me envergonhado por toda a sujeira que carrego àquele lugar tão santo: o Calvário. Incrível um lugar que há dois mil anos era significado de morte, hoje é de vida. Não é para qualquer um entender os mistérios dessa Redenção, mas, diante de Cristo crucificado, pude ver claramente.
Meu coração prende-se aos pregos das mãos e dos pés do Senhor. "Livre-me de ser meu", eu repito. "Leve-me por inteiro! Quero estar contigo". Meu amado olha para mim com aquele olhar tão acolhedor, tão aconchegante, e percebo que seu olhar nunca fora diferente.
"Quais eram mesmo as coisas que me perturbavam?", penso, percorrendo os limites de minha memória debilitada. Não há mais nada; nada que me faça sofrer, nada que me tire a vontade de passar a vida inteira naquele lugar.
Quem eu mais amo está diante de mim, completamente ferido, em seus últimos segundos de vida. Seus sangue pingam em mim, mancham minhas vestes. Reparo que, quanto mais seu sangue é derramado sobre mim, mais limpo eu fico. Toda a sujeira, a ferida, tudo está a me deixar.
"Agora sinto-me digno, Pai. Leva-me!", digo. Mais uma vez me olha com tão precioso amor, com aquela doce ternura que me faz sentir-me envergonhado de todas as vezes que o neguei, que zombei de seu nome, que não soube amá-lo e obedecer suas leis. E, com isso, mais de seu sangue mancha meu ser, e eu não quero nada além de ser ainda mais inundado por ele.
Já está indo embora e eu permaneço ali.
"Pai, ainda estou aqui, leva-me contigo! O mundo é mau, os homens são maus, estou ferido, não quero nada além de Ti! Leva-me contigo, Pai. Eu imploro". Mal consigo terminar de falar com tantas lágrimas que me vêm aos olhos.
E, olhando novamente para mim, o Senhor me diz, com dificuldade: "Tu és como uma criança que, vendo o pai partir em viagem, chora para acompanhá-lo. Entenda, minha criança, que ainda não é tua hora. Você ainda irá crescer, aprender muito e ter idade suficiente para ir comigo. Essa idade não é igual para todos, mas tu tem a sua, e deverá esperá-la chegar. Agora eu vou, mas tu sabes que nunca esteve sozinho. Em todos os momentos fáceis e difíceis, eu estive contigo. Vi cada uma das tuas lágrimas. Não tenhas medo do mundo, meu filho, porque quem o criou está contigo", e, dizendo isso, expira.

Um Comentário

  1. Há muito tempo eu havia esquecido da importância de unir a escrita aos anseios espirituais da alma: o anseio de se unir ao Amado completa e puramente com tudo o que eu tenho. E você me recorda isso com palavras tão doces e sinceras, direcionadas Àquele que eu também amo, Àquele que também louvo e adoro. E é a Ele que agradeço por ter me dado a oportunidade de encontrar as virtudes que brotam do seu coração, assim auxiliando para que eu seja também virtuoso e tenha fé. Lindíssimo texto, eu quero contemplar mais, e registrar numa escrita que seja meu coração em palavras.

    -Comentado enquanto ouvia "Aos Pés da Tua Cruz" - Banda DOM / "Existe um Louvor" - Davidson Silva. <3

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