28 setembro 2016

Mesmo que haja dor em nossa alma...

Essa semana minha mãe retornou de viagem, ela havia se ausentado por uns dias desde que melhorei da pneumonia que me acobertou nas ultimas semanas. Percebendo minha permanência no quarto e sabendo que foi devido a minha baixa imunidade que a doença se alastrou, com seu jeito falante e sorridente adentrou meu quarto com uma revista na mão dizendo-me que iria ler uma historia. Eu, com o olhar de desconfiança e um pouco incrédula se aquilo teria mesmo a ver comigo. Mas ela sentou-se na minha cama e começou:
- O diabo resolveu vender os instrumentos que usava para perder as pessoas. Fez uma enorme exposição com todos os instrumentos. Eram grandes ferramentas como: ódio, violência, bebedeira, corrupção, prostituição, trafico de drogas, de arma. Enfim, lá estavam todos os instrumentos a venda. Porém, havia um separado de todos os outros e, apesar de velho e gasto, o seu valor era equivalente ao preço de todos os outros juntos. Havia uma enorme curiosidade a respeito daquele objeto. Por que era tão caro? E o diabo lhes respondia: Compre e você descobrirá. Devido ao custo ninguém comprou. Chamava-se desanimo. E o diabo explicou: Só vendo por um alto preço porque foi muito útil para mim. Se uso a droga, a violência ou a prostituição, logo a pessoa me reconhece e sabe que o instrumento é meu. Mas o desanimo não. As pessoas pensam ser algo de sua personalidade, do seu temperamento, acham que tem o direito de ficar desanimados por causa dos problemas. E acrescentou: desanimadas, desfalecidas, faço qualquer coisa com elas. Acham que possuem uma boa justificativa para sofrer e não reagem.
Ao terminar ela me fitou por cima dos óculos, sorriu e disse: “Que interessante, né, filha?!”. Deixou a revista ao meu lado e saiu. Aquilo me provocou, incomodou, olhei para revista e vi o titulo da matéria: Não Se Entregue à Tristeza, um texto do Monsenhor Jonas Abib. Comecei então a refletir. Não tem sido dias fáceis; abandono do emprego, mudança de cidade, de paróquia, uma nova adaptação, a procura por novos trabalhos na igreja... Tudo isso me paralisou e a tristeza e o desânimo eu acolhi. Passei dois dias chorando sem cessar desacreditada da vida até que resolvi que aquilo não deveria me afetar, que eu tinha que reagir. Ao tomar essa decisão e levantar da cama, as fortes dores surgiram e em questão de minutos estava no hospital. Nosso corpo reage às dores que nossa alma sente. Mas nada justifica meu desânimo, minha debilidade. Sem perceber eu adquiri o bem mais precioso do diabo, logo eu que sou o bem mais precioso de Deus.
Não foi a primeira vez e nem a ultima que a minha alma sentiu dor. Ter tristeza, todos temos e teremos, mas se entregar a ela é algo diferente. Na Bíblia encontramos muitos casos de pessoas contando suas tristezas a Deus, até há um livro inteiro chamado Lamentações. No artigo, Monsenhor Jonas Abib cita Eclesiástico 30, 22-23 (não colocarei aqui, deixo que ao fim do texto você procure sua Bíblia e leia).
Certamente você já ouviu a frase "A alegria do Senhor é nossa força" ou “Alegrai-vos sempre no Senhor”, mas entre saber de cor uma frase e a colocar em pratica há uma grande diferença e uma escolha. É do alto que vem a força para colocar um sorriso na cara, levantar da cama e viver. Isso não é fingimento, é CONFIAR em Deus. Não é mais hora de ficar remoendo suas tristezas, ficar vasculhando suas memórias de sofrimento, tudo o que já nos aconteceu já foi o suficiente. É hora de escolher por colorir nossa própria vida com as cores que nos foram dadas por Deus e levar ao outro nosso semblante de superação; de alguém que se coloca inteiramente nas mãos de Deus, aos pés da Cruz e no colo de Maria.
Mesmo que haja dor em nossa alma, isso não mais definirá nosso estado emocional e muito menos o que transmitiremos aos outros. Que hoje você e eu possamos compreender nossas dores e revigorar nossas forças no Senhor.
Salve Maria!

27 setembro 2016

Solidão é liberdade

Talvez eu seja a pessoa menos adequada para falar sobre isso. Eu tenho bons amigos, nunca fui de ter muitos amigos ou ser muito popular. Tenho colegas, mas amigos mesmo, daqueles que nos derramamos e nos desfazemos das máscaras, são contados. E com estes eu sempre tive a graça de poder dividir momentos bons e ruins, é certo: quando a coisa pega eu corro pra me desafogar neles. Mas nos últimos tempos a coisa meio que mudou um pouco, não por distância ou erros nossos, mas quis precisar da solidão. Precisei encarar algo que provavelmente em anos nunca havia sentido: solidão.
A gente vive cercado de pessoas, em constante contato, seja pessoal ou pelos meios, e acabamos não deixando espaço e tempo para ter intimidade com Aquele que mais precisamos estar conectados. Ultimamente tenho experimentado situações de dúvidas constantes, e certas interrogações e dificuldades eu quero partilhar com alguém, receber um conselho ou só uma presença para ouvir sem condenar, mas no fim acabo percebendo que só Deus pode entender aquele meu momento. Foi preciso que eu vivesse essa solidão pra aprender a viver só eu e Deus, pois no final vai ser assim. É preciso que eu seja aquilo que eu ainda não sou, mas que Deus sabe que eu preciso ser, não devo, mas preciso, como necessidade mesmo. Preciso para mim, e principalmente para o outro.
Esse texto começou com solidão, estado que nos faz distante dos outros, mas estranhamente ela acaba por nos reaproximar se soubermos usufrui-la bem. Solidão usada para autoconhecimento nos leva a edificação própria e modo de socorrer o outro. Solidão, como canta o meu querido Tiago Iorc, com o tempo se descobre que pode ser na verdade liberdade. Solidão a gente desaprende por fraqueza, por pavor e medo do vazio, mas é preciso lembrar que O temos até quando parecemos não ter mais nada e isso basta.  A Sua presença nos encoraja e nos leva a avançar crendo que os melhores dias estão por vir.
''Desaprendi a encarar a solitude da alma
No abandono o pavor, a insustentável fraqueza
Não sei ficar, ficar sozinho agora
Eu tenho você, mas o meu medo estraga
O medo estraga, o medo e mais nada
O medo se vai quando
Ouço a voz do alto me dizer:
Sê valente, sê valente!''

Conto de saudade

Hoje à tarde o céu estava meio fechado. Era mais um daqueles dias cinzas e eu estava tomando um chá quente enquanto assistia ao jornal. Olhei por um instante para a decoração da sala e vi a quantidade de quadros que preenchiam as estantes. Várias fotos nossas, várias memórias registradas para que pudéssemos apreciá-las a qualquer momento. Sei que você não tem o costume de passar muito tempo por aqui, mas queria poder tirar mais fotos contigo e, quem sabe, comprar uma nova estante para colocá-las.
Fico chateado por você estar aí fora, mas não queria te segurar aqui, afinal, sua vida está bem corrida e talvez você não tenha muito tempo para passar comigo de qualquer forma.
Bebi mais um gole do meu chá, sentindo bem o cheiro característico que, de certa forma, me recorda você. O velhos pêndulos do relógio continuavam seu tic tac, algumas madeiras rangiam e um vento frio vinha da janela que deixei aberta. Fui para o quarto pegar uma coberta para colocar sobre minhas costas e não pude deixar de fitar a paisagem por alguns instantes.
Sabe, ando meio preocupado com você ultimamente. Seu semblante tem ficado cada vez mais fosco, aquele brilho nos seus olhos parece estar apagando. Você começou a andar um pouco mais arcado do que o normal. Parece até que está olhando mais para o chão. Eu sei que as coisas estão difíceis e até achei que uma conversa pudesse ajudar, mas você fugiu quando chamei seu nome. Disse que estava apressado e bateu a porta sem nem se despedir direito, mas eu percebi que hesitava em ir.
Não é a primeira vez que você faz isso e não vai ser a última. Mas eu gosto de como em todas elas o desfecho foi o mesmo. Por mais que passe algum tempo, sempre te ouço bater à minha porta chorando e querendo um aconchego, um carinho, e por que não o daria? Adoro te receber aqui em casa. Aí você entra, deita a cabeça no meu colo e deixa que as lágrimas caiam e molhem toda minha camisa, mas não tem problema.
Eu sei o quão grande é o seu desejo de sempre estar por aqui, de morar comigo para tomarmos chá durante as tardes, conversarmos sobre nossa rotina e, quem sabe, jogarmos alguma coisa juntos. Sei também o quanto te machuca essa distância e não posso te culpar. Por mais que você tenha seus afazeres e suas obrigações, seu coração não se esquece de onde ele veio, a onde ele pertence, e é por isso que fico a todo instante olhando pela janela da frente para ver quando você está chegando.
Ah, filho, vem aqui. Me dá um abraço, deixa eu acariciar esse rosto, dar uma arrumada no seu cabelo.
Sinto sua falta sempre que você foge. Fico sempre olhando para os nossos quadros enquanto espero te ver correndo pra cá ou ouvir suas batidas na porta.

A cada dia que passa as coisas ficam mais difíceis e parece que o peso sobre as minhas costas só aumenta. A vontade de chorar se tornou constante na minha rotina e acho que até perdi minha capacidade de criar laços com outras pessoas. Por mais que eu tenha alguns momentos para relaxar, sinto como se algo me pressionasse sem cessar, como se meu peito fosse esmagado numa tentativa de suprimir vários sentimentos aqui dentro.
Eu sei que eu não devia fazer isso, mas é tão confortável me forçar a não sentir algumas coisas. É como se o trabalho de não criar nenhum tipo de esperança, de não deixar durar nenhuma alegria e tentar não sorrir mais do que julgo o necessário fosse menor do que me esforçar para manter um certo nível de felicidade na minha vida.
O que é fato é que estou cansado de tudo isso. Não faz mais sentido gastar toneladas de energia só para afogar meu coração nesse oceano escuro, tampouco para tentar resgatá-lo a todo custo. No final das contas me sinto a deriva esperando que alguém estenda sua mão e me salve de afundar, mas eu sei que ninguém vai. Não é tão simples assim.
Quando se vive com esse tipo de peso nas costas tudo fica complicado e meio cinza, e não é algo que eu possa controlar. Só algo que posso lutar contra. É como se fosse um balde embaixo de uma torneira bem forte. Por mais que às vezes a água transborde ou extravase, sempre terá mais para enchê-lo de novo.
De fato, as coisas não são fáceis quando se está longe de casa.
Às vezes, andando pela rua, sinto aquele cheiro do seu chá e sinto uma enorme saudade da sua sala bem arrumada, do sofá cheio de almofadas, mas principalmente dos nossos quadros. Sempre me pergunto se você me aceitaria de volta depois de ter partido daquele jeito. Eu sei que já fui embora várias vezes e sempre fui acolhido quando voltei, mas parece que agora foi diferente. Eu não devia ter sido tão rude, por mais que estivesse irritado, ora, você sempre me amou do jeito que eu estivesse.
Acho que o que vence não é nem o desânimo ou a profunda tristeza que machuca meu coração, mas sim a vontade e necessidade de te ver de novo, de voltar pra sua casa. Por mais que eu não tenha forças, lá no fundo sinto uma faísca que me impulsiona a caminhar todo o caminho de volta para os seus braços, Pai, e sei que essa faísca vem de Você.
É incrível como seu rosto está ali na janela sempre que estou passando pela frente do seu quintal, como seus braços me envolvem da mesma forma que da primeira vez, como sua voz me acalma e me traz segurança. Segurança essa que me faz deitar minha cabeça sobre seu colo e derramar todas as lágrimas do meu oceano.
Ah, Senhor. Tu sabes que eu gostaria de ficar para sempre contigo e que essa distância machuca, mas o que mais machuca é o fato de eu não ter força o suficiente para não abrir a porta e sair correndo, muitas vezes. Como eu gostaria que nossos reencontros se tornassem um grande encontro.
É aqui, nos seus braços, que percebo o quanto preciso de Ti na minha vida. É onde encontro forças para continuar caminhando e é onde Você deixa aquela faísca pra que eu tenha a força necessária para voltar e ser todo Teu mais uma vez.
Design e Código: Sanyt Design | 48janeiros • voltar ao topo